A SINESTESIA NA “SUÍTE PAULISTANA” DE EDU MARTINS

por Marcus Fabiano

Fotografia de Nilton Santolin.

A rede nervosa que trança pelo corpo inteiro nossa fiação dos sentidos apresenta às vezes os seus curtos-circuitos. Que os cheiros invoquem sabores e vice-versa todos sabem. Mas existe uma palavra – sinestesia – para caracterizar o que acontece quando a bateria das sensações atravessa de modo inabitual diferentes províncias de nossa percepção, confundindo os canais das imagens e dos sons com sabores, perfumes e texturas. Quando escutei pela primeira vez o jazz e a composição entrecruzando-se na música de Edu Martins, logo pensei em Villa-Lobos. Não propriamente no maestro, mas antes em suas paisagens, pois desde a sua partida a Suíte Paulistana transportou-me do conturbado ambiente urbano para a bucólica estação do Trenzinho do Caipira. E se Villa-Lobos está na partida, já na segunda música (a rigor quase um segundo movimento) todo um sistema compositivo intensamente inspirado em Shostakovich comparece para nos acomodar na primeira classe de um trem sofisticado e moderno, que cruza de Sul a Norte os ritmos do Brasil em uma deslumbrante sucessão de panoramas sonoros.

O trem é como uma espécie de casa sobre trilhos. E conjugando conforto ao movimento, nele Edu Martins nos convida a frequentar o vagão restaurante. Lá ele tira o boné de maquinista e veste o seu avental para nos proporcionar um requintado banquete de sabores inusitados, insólitas combinações da alta gastronomia com nossas cozinhas regionais, servidas com o carinho da comida caseira do Brasil. Porém, como chef Edu não é um simples mercador de exotismos, é um sintetizador de tradições, pois se o cosmopolitismo do seu jazz não pretende simplesmente imitar a música negra americana, tampouco se dispõe a ignorá-la; se sua vinculação à música clássica é explícita, suas pesquisas apontam tanto para o que há nela de mais recente como para uma releitura dos seus registros barrocos que nos são tão caros. Afinal, a identificação da assinatura de um artista se dá pela presença de um mínimo inconfundível, o uso daquela especiaria rara no momento exato, tudo que se distingue do prosaico caldo em cubos industrializado fartamente à disposição nos supermercados da fonografia de massas. Edu Martins conhece tanto a alta culinária internacional como os segredos da cozinha de santo de Iaiá: os seus acordes arpejados podem ir do caviar de Debussy ao cravo e canela de Tom Jobim. Sem jamais dispensar a qualidade dos produtos de terroir, em seu disco o Cravo Bem Temperado de Bach convive com os arrojos do experimentalismo fusion. É assim que açúcares inusitados harmonizam-se admiravelmente com pimentas suaves e refrescantes. Algum musicólogo seguramente poderia discorrer sobre isso a que não me atrevo: explicar em termos exatos o agridoce de pitanga que se prova nas harmonias dissonantes de Suíte Paulistana. Mas haveria, para quem já não conhecesse, alguma descrição confiável para esse travo cítrico envolvido pela polpa doce misturada a um aroma de mato úmido? Improvável. Falar de uma música nunca ouvida é como descrever uma pitanga para quem jamais a provou.

Distante das obsessões acadêmicas que buscam submeter a composição a alguma fórmula rígida, Edu Martins explora toda a paleta da escala cromática, percorrendo os minúsculos intervalos dos semitons para produzir uma música cujo efeito final resulta de uma combinação de sutilezas. Como Béla Bartok, ele é um homem da pesquisa e da pitada. Da pesquisa porque mostra um zelo sistemático pela tradição diluída no anonimato da sabedoria e do gosto populares; da pitada porque a sua obra não tem receitas em gramas ou colheres, ela nasce do segredo quase alquímico daquele toque exato e sem medida. Edu já mostrava essa intimidade com os temperos no seu CD Saia Rodada, repleto de belíssimas sequências de acordes lídios em canções de variadas espessuras dramáticas, tanto efusivas (a exemplo da ótima faixa de abertura, Saia Rodada), como melancólicas (dentre as quais me agradou em especial a faixa Como eu Quero, magistralmente interpretada pelo violão inconfundível e o timbre docemente melancólico de Guinga).

Circulando por espirais de séries sem fim, Edu convida-nos a uma ciranda de passeios conduzidos por seu contrabaixo, embora como compositor e instrumentista ele tantas vezes maneje a batuta do maestro. Talvez fosse até mesmo mais correto compreendê-lo nesse ofício como um timoneiro no comando das surpreendentes trocas de harmonias, ousadia pela qual ele demonstra ser um marujo versátil, experimentado em águas muito diversas – ora singra por mares revoltosos, ora nos leva por plácidas águas ribeirinhas, remando a sua canoa por estreitos igarapés e igapós. Ele espelha-se aí na vocação exploratória e nas evocações plásticas de Villa-Lobos, algo que Egberto Gismonti rapidamente percebeu e saudou com entusiasmo na abertura de Suíte Paulistana. Na faixa Tarde Livre, o baixo executa um solo já como se um piloto loucamente largasse o leme e passasse a arriar e subir velas com o ímpeto de um desportista náutico em uma regata de curvas vencidas quase contra o vento. Agarrado aos cabos da linha melódica, o ouvinte suspende o fôlego e sequer pode confiar em uma estabilidade harmônica que gentilmente distribua coletes salva-vidas pelo convés. A fruição da beleza dissonante de Suíte Paulistana exige o nado por contrapontos variantes e muitas sessões de naipes distribuídos um em cada tom. Mas a recompensa da satisfação é certa pela mestria na condução de uma politonalidade capaz de fazer sons de procedências tão distantes experimentarem cruzamentos vertiginosos. Ao percorrer com audácia a escala dos semitons, as sofisticadas soluções harmônicas revelam-se como construções frágeis, permanentemente ameaçadas de sucumbirem à potência caótica dos minúsculos intervalos. Entretanto, elas nunca cedem. E é precisamente por enfrentar essas correntezas e redemoinhos que a música de Edu Martins alcança a sua delicada tensão psicológica. Ela opera por diluições de dissonâncias reconstruídas em um convívio que aceita como bela a condição da própria precariedade, algo cujo paradoxo de um resultado irresolvido só poderia surgir da reunião nada fortuita entre o mentalismo compositivo de quem se fez herdeiro de grandes tradições e a intuição de quem improvisa ao sabor de emoções que puderam encontrar o exato meio expressivo nas habilidades de um músico extraordinário.

Quero então considerar essa outra peculiaridade do CD Suíte Paulistana: a sua percepção multidimensional do processo criativo. Dando prova de uma invejável sinergia de destrezas, Edu Martins concede a mesma importância aos momentos de composição, arranjo, e improvisação – isso além da sua perícia com aquelas centenas de teclas e botões que um produtor digno desse nome necessita hoje conhecer. A sua abrangência das diversas instâncias do processo criativo alia-se a um ótimo entrosamento com os músicos para culminar em uma dissolução dos sistemas condutivos. Os standards de classificação dos gêneros são aí propositalmente desconsiderados para melhor permitir aos instrumentos passagens por ritmos variados. Samba, choro, bossa, baião, maracatu, maxixe, forró, jazz, clássicos eruditos e improvisos podem então virtualmente acontecer em uma mesma música. Percebo nessa consciência aguda da obra como acontecimento uma característica distintiva dos grandes músicos, pois se afinal a música é tempo, as modalidades de sua antecipação – o expectare da sua espera – podem ser tranquilizadas por andamentos previsíveis ou, como em Edu Martins, devem surpreender. No álbum Suíte Paulistana, a adoção metódica desse imperativo da surpresa torna o próprio estilo da música uma outra camada criativa, mais um espaço aberto à inventividade, libertando a criação final da camisa de força dos gêneros previamente estabelecidos. Claro que nisso tudo as apostas são altíssimas. A execução pode desandar ou os instrumentos podem tocar ao mesmo tempo sem no entanto tocarem juntos. Isso porém não parece incomodá-lo. Um ótimo exemplo do que estou falando é o Samba for Bird, uma luxuosa homenagem a Charlie Parker, composta pela reunião de fragmentos dos seus solos arranjados na melodia de um blues executado como samba. Parece difícil? Creio que não só pareça. Mas escute e veja o seu acabamento impecável: nada de rejuntes, nem sinal dos andaimes.

Edu Martins tocou ao lado de nomes como Cesar Camargo Mariano, Milton Nascimento, Guinga, Marina Lima, George Benson e, recentemente, Dave Liebman, o saxofonista da lendária banda de Miles Davis nos anos 1970. Diante desse elenco, seria muita pretensão um leigo tentar dar conta da sua trajetória musical. Logo, por não ter (e tampouco pretender) a competência de um crítico especializado, iniciei falando de sinestesia, pois foi assim que percebi a sua música, em termos de sabores e paisagens. Quem prová-la seguramente poderá experimentar outras sensações. Mas como ao cabo seria inútil tentar traduzi-las, da música de Edu Martins só me resta testemunhar que jamais tinha ouvisto algo tão promissor entre músicos contemporâneos.

* Publicado originalmente em Mallarmargens – Revista de Poesia e Arte Contemporânea

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