UM AARDVARK SEM DÜRER: ANTROPOLOGIA E TAXONOMIA DO DESCONHECIDO

por Marcus Fabiano

Deixo por alguns instantes o ramerrão dos aleres e afazeres acadêmicos e, graças a um animal muito menor, imagino, por frações de incredulidade, qual não teria sido a surpresa causada por um rinoceronte em plena Europa do século XVI. Fazia praticamente 1200 anos que o Velho Continente não se deparava com aquela criatura já transfigurada em lenda pela iconografia dos bestiários medievais. Penso aqui no famoso rinoceronte branco enviado ao Papa Leão X por Dom Manuel I. O tal ganda – nome indiano para a ignotae bestiae – fora dado de presente pelo Sultão de Cambaia, Modofar II, ao Vice-Rei da Índia, Afonso de Albuquerque, que decidiu repassá-lo ao Rei Dom Manuel I, e este, por sua vez, depois de faturar o prestígio com a novidade, preferiu agraciar o Papa com a exótica criatura a fim de sensibilizá-lo para o reconhecimento do domínio português das novas descobertas. Não era fácil esse Dom Manuel, Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia, cognominado o Venturoso. Seguramente hoje não seria assim tão aplaudido, pois justo a ele coube o financiamento do primeiro surto infernizante da globalização europeia, aliás simbolizada na sua heráldica pessoal pela mesma esfera armilar que Jean Baptiste Debret muito depois incorporaria ao croqui da bandeira imperial do Brasil.

Em tempos de GPS falante, abro aqui um parêntese digressivo sobre esse antiqüíssimo apetrecho astronômico, tataravô do astrolábio, hoje mais conhecido como um reles ornamento, tantas vezes em decomposição, das edificações luso-brasileiras. A grafia latina sphera acabaria tornando-se, em português, responsável por alimentar a corruptela da pronúncia espera, fincando ainda mais atrás a estaca inicial dos sentimentos de expectação caracterizadores da mística sebastianista, passando a matizá-los de certa melancolia náutica relacionada ao olhar que no cais aguarda o retorno das naus e às miradas dos cestos de gáveas à procura de novas terras. Originária da antigüidade de Mileto, não se sabe como a esfera armilar, já no século I, foi parar na China, a mãe biológica de muitas tecnologias e a possível pioneira da circunavegação que, contando com o almirante Zheng He (1371-1435) entre suas hostes, deveria sorrir discretamente com as expedições de Vasco, Colombo ou Cabral. E por falar em Cabral, mesmo cá no Brasil, um pouco de atenção poderá revelar diversos indícios dessa proximidade entre Portugal e a China, amplamente impulsionada pelos Jesuítas ainda quando a Coroa não andava às turras com a Companhia de Jesus. A propósito dessa proximidade, eis aqui duas esferas armilares, uma que fotografei, em Fernando de Noronha, no monumento em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral (os aviadores portugueses pioneiros no cruzamento aéreo do Atlântico) e outra que capturei de um dos fabulosos instrumentos astronômicos do Observatório Imperial de Pequim (Dinastia Ming).

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Na esfera armilar oriental, é recorrente tema do dragão dominando o globo, coisa que pôde depois ser encontrada em medalhas premiais de Portugal e do Império do Brasil (especialmente de Dom Pedro II), nas quais, porém, a serpe alada da Casa de Bragança (a mesma presente no topo do cetro imperial) substitui o seu primo quadrúpede e cuspidor de fogo. Tornada um ícone das navegações ultramarinas e da ambição expansionista portuguesa, a esfera atravessaria os séculos e no Brasil passaria da bandeira de Dom Manuel para o pavilhão nacional republicano. Contudo, promovida à condição de um genuíno símbolo monárquico lusitano, ela só poderia comparecer de modo muito sutil ao nosso lábaro estrelado: justamente como uma abóboda celeste na qual se inscreve, por posicionamento geocêntrico, um lugar (a latitude da cidade do Rio de Janeiro), um dia (15 de novembro) e uma hora (12 horas siderais, aproximadamente 8:14 da manhã). Contudo, o advento da Republica não borrou completamente a presença desse emblema real do quotidiano visual dos brasileiros. Ainda hoje, qualquer passeio pela cidade do Rio de Janeiro poderá contar diversas aparições da esfera armilar, como a que é levada na mão direita por Dom João VI em sua estátua eqüestre ou a que existe no pináculo do chafariz da pirâmide do Mestre Valentim, ambas localizadas na Praça XV de Novembro, antigo Largo do Carmo.

Mas enquanto não se torna admissível para os brios ocidentais que os amarelos possam ter chegado à América bem antes dos nem tão brancos europeus, encerro o parêntese sobre a esfera armilar e sigo imaginando a surpresa papal com o rinoceronte, considerando inclusive que Sua Santidade já havia recebido d’El Rey um elefante amestrado, de nome Hanno, capaz de, entre os muitos gracejos do seu repertório, ajoelhar-se diante daquele sucessor de Pedro que cá nesse mundo era na ocasião um dileto membro do clã dos Médicis. Teria então o Santo Padre cogitado de uma bula revisando as dimensões da arca de Noé? Pela carta de agradecimento a Dom Manuel pelo elefante, sabemos que, mesmo entusiasmado, o Papa não deixou de recordar o sanguinolento videogame ao vivo, com gladiadores, feras e cristãos que os romanos outrora promoviam naqueles seus maracanãs sem grama. Isso porém não expressava qualquer sorte de comiseração pelo triste fim de homens e criaturas que sucumbiam para o êxtase dos caprichos pagãos. Aquelas eram épocas de outros sentimentos. Leão X planejava mesmo era promover em Roma um torneio em tudo semelhante àquele realizado por Dom Manuel em Lisboa com enormes êxito e repercussão. Por uma carta do tipógrafo alemão Valentin Ferdinand, sabemos que, durante a festa da Santíssima Trindade de 1515, Manuel resolveu bancar o César e organizou em Lisboa o combate entre um de seus elefantes e o rinoceronte recém chegado. A idéia mirabolante teria surgido dos relatos do romano Plínio, o Velho, que descrevera uma suposta inimizade natural entre as duas bestas colossais. Valentin conta então que, improvisada uma arena para o combate, o elefante, acossado pela algazarra popular, ao enxergar o rinoceronte simplesmente fugiu em desabalada carreira, levando tudo e todos por diante. Resultado do combate: o ganda foi aclamado vencedor e estavam assim dadas as circunstâncias para que de Lisboa se irradiasse por toda Europa uma narrativa que converteria o rinoceronte, na ausência do aguardadíssimo dragão, em patrono da blindagem e da bravura de cavaleiros e militares, integrando inclusive suas heráldicas e armoriais.

Após o grandioso espetáculo em Lisboa, o rinoceronte fora preparado para presente: recebeu uma corrente doirada e uma coleira cravejada de flores e predrarias. Todavia, a embarcação saída de Lisboa com o gigante a bordo destinado ao Papa, naufragou na costa da Itália. Do ganda só ficaram relatos e um rudimentar esboço de Valentin Ferdinand, enviados a Nuremberg. Mas apenas isso já bastou para que de lá, Albrecht Dürer, mesmo sem jamais ter visto o tal rinoceronte, tratasse de desenhá-lo em 1515, acrescentando-lhe ainda diversos detalhes insólitos, como um chifre no dorso, carapaças de crustáceo e escamas de réptil pelas patas. Dürer providenciou ainda uma xilogravura a partir do seu desenho. E foi esta obra que, reproduzida à exaustão, fixaria para toda a Europa a aparência de um rinoceronte até fins do século XVIII. No ano de 1956  – portanto: 441 anos depois – Salvador Dalí fascinou-se com o desenho de Dürer e decidiu fundir em 3600 quilos de bronze a sua versão tridimensional do rinoceronte. Assim, em virtude de um naufrágio e das imprecisões de uma espécie de retrato falado feito à distância, mais de quatro séculos depois, um precursor desenho científico, com propósitos de exatidão e fidedignidade,  viraria uma autêntica obra surrealista.

 

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A admiração estética é com freqüência provocada pelo magnífico desvelado de seu ineditismo. Exatamente por isso, a surpresa e o susto cuidam de avizinhar o maravilhoso ao medonho. Podemos notar exteriormente um tal estado psíquico quando a perda da tensão do maxilar inferior provoca nos lábios o oblongo e silencioso desenho de um “Ó”, atestando a vulnerabilidade de uma percepção assaltada pelo mutismo que momentaneamente seqüestrou-lhe as funções da linguagem. Por isso dizemos que algo impressionante é de cair o queixo. E quando estamos de queixo caído, ficamos sem palavras. A simples nomeação do desconhecido opera aí como a maneira mais recorrente de torná-lo assimilável a um entendimento que procura a todo custo recobrar-se do chofre de uma comoção. Os efeitos arrebatadores ou angustiantes do inusitado e do repentino são assim tranqüilizados pela espera de algo que possa ao menos ser domesticado por um nome. Nesse curso, a ânsia de assimilação do extraordinário ao rotineiro vai cometendo os seus tropeços classificatórios. E é perfeitamente compreensível que as coisas assim se passem, sobretudo antes de Lineu ou Darwin. O episódio do contato dos antigos gregos com a girafa é emblemático. Por algumas similitudes anatômicas – isto é, por um impulso que buscava acomodar o novo ao conhecido – os helenos compuseram a sua denominação para girafa a partir de um prosaico acoplamento dos nomes do camelo e do leopardo que até hoje, em grego moderno, a designa como camelopardo (καμηλοπάρδαλη). Algo semelhante também se passou com Marco Polo quando em Java ele encontrou um rinoceronte: relatou então ter visto um unicórnio, lamentando porém que fosse tão feio e agressivo, muito mais próximo de um grande boi do que de um cavalo, com patas de elefante, pelagem de búfalo e cabeça de javali.

Na classificação e na nomeação de um ente, muitas vezes somos levados a negligenciar ou distorcer os seus atributos constitutivos indispensáveis, aqueles que fazem de uma coisa ela mesma e não outra, segundo o muito velho e ainda vigoroso princípio aristotélico da identidade (A=A). Ademais, parece haver uma espécie de resistência mental em se abrir uma nova rubrica no nosso esquema compreensivo movido por estoques de analogias, uma certa relutância em se perceber o inédito a partir dele mesmo, da sua singularidade ou da sua excepcionalidade. Isso prova que, desde uma perspectiva, digamos, hermenêutica, ver, interpretar, descrever e nomear não são atos mentais automáticos e que dependem de uma verdade mais profunda ou objetiva: são construções conjecturais dessa precária relação entre  mundo e linguagem, pretensões comunicativas que a todo instante realizam dramáticas escolhas e arcam com consequências tão mais graves conforme o grau de concretude e a excepcionalidade do que esteja sendo enunciado. Entretanto, alheio a nomes ou a taxonomias, o deslumbramento com um elefante, um rinoceronte ou uma girafa magirus é sempre novo nos olhos vidrados de qualquer criança que, nascida longe das savanas africanas, visite um zoológico pela primeira vez. Como eu aqui, de novo com cinco anos de idade, em frente à tela desse computador, ouvindo estarrecido uma fábula nos relatos de Marília que me conta, dos confins da África do Sul (enquanto não chega a foto prometida) de um animal glabro, entre o meigo e o asqueroso, arranjado como em uma cruza de tatu, coelho, rato e porco, que em língua africânder é chamado aardvark.

 

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