ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: novembro, 2012

LEMBRANDO CRUZ E SOUSA

broquel

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OS NOVOS BROQUÉIS

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dito um certo oblíquo
de requintes despojado
sem as maneiras finas
do nu e do calvo
libidinoso e dissoluto
feito um fauno
ou antes mesmo um tarado
que se apresenta inconveniente
(de pau duro e pelado)
que atinge de través
como a cilada inevitável
que não é de quina perfeita
como o canto do esquadro
que chega bicudo e hostil
como o cotovelo do gaiato
que alvoroça e aterroriza
a sentinela em sobressalto
que brandindo seu escudo
enfim revida o atentado

mas não um escudo muro
dos de imenso anteparo
e sim um que é até pequeno
a bem dizer discoide ou ovalado
um escudo então redondo
(sem as coberturas do biombo)
que para se exprimir corretamente
remove o pó da palavra broquel
– a mesma dos Broquéis de Cruz e Sousa:
um escudo ágil e de estreita loisa
que traz no centro de sua calota
uma ponta muito aguda
(por isso dita broca)
recurso derradeiro de quem
surpreendido sem seu gládio
conserva na própria defesa
o rechaço do adversário.

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O DRAGÃO DO MAR E O ALMIRANTE NEGRO

A bela ilustração acima foi feita por Antônio Augusto Bueno para o ARAME FALADO. Ela refere-se ao poema que está ao final dessa postagem, ENCOURAÇADO MINAS GERAIS, cujo título provém do nome do navio de combate tomado pelos marujos comandados pelo marinheiro João Cândido Felisberto, o Almirante Negro,  na Revolta da Chibata, em 1910. Durante a crise que levaria o país ao Estado de Sítio, os altos oficiais da Marinha, alimentados por teorias raciais, duvidavam que os negros tivessem inteligência suficiente para manobrar a novíssima tecnologia das embarcações bélicas recentemente encomendados pelo Brasil à Grã Bretanha. Mas essa dúvida só durou até o primeiro disparo de advertência. João Cândido aterrorizaria o Rio de Janeiro com tiros de canhão desfechados desde a Baía de Guanabara sobre o Palácio do Catete e o Congresso Nacional. Ele e os revoltosos reclamavam assim a eliminação definitiva dos castigos corporais (açoites) que ainda subsistiam no código de conduta da Marinha, voltados à humilhação pública dos marujos, na maioria negros e mulatos pobres, em sessões sádicas nas quais os oficiais portavam seus uniformes de gala. A Revolta da Chibata foi a conquista de nossa segunda Abolição. E aliás, ao contrário do que se imagina, mesmo a Abolição de 1888 não foi uma simples concessão da Monarquia: foi uma vitória de homens aguerridos, escravos e libertos, brancos e pretos. Um dos precursores dessa luta foi Francisco José do Nascimento, o DRAGÃO DO MAR, o jangadeiro de Canoa Quebrada que heroicamente impediu o transbordo dos navios negreiros nos portos do Ceará, lutando também pela libertação de todos os cativos naquela província, o que aconteceria já em 1883, portanto cinco anos antes da Lei Áurea. O nome do DRAGÃO DO MAR é lembrado na música de Aldir Blanc e João Bosco em homenagem a João Cândido, O MESTRE SALA DOS MARES. Aqui nesse link pode-se acompanhar a “cirurgia” imposta pela censura da Ditadura Militar à letra da canção que acabaria por se consagrar na magistral interpretação de Elis Regina. Vale muito à pena pesquisar a história da Revolta da Chibata que, com a traição de Hermes da Fonseca, acabou com o massacre de mais de 200 marujos e a expulsão de outros 2000 homens da Marinha do Brasil. João Cândido sobreviveu à prisão na Ilha das Cobras e permaneceu internado como louco durante anos, voltando a viver na miséria até 1969. Ele só seria reabilitado em 2008, sob a nítida desaprovação do alto oficialato da Marinha, que ainda o tem por um amotinado. E como a história da resistência à opressão é uma só, lembro que a principal influência da Revolta da Chibata foi a sublevação dos marinheiros russos do Encouraçado Potemkim, ocorrida em 1905, a respeito da qual os marujos brasileiros tomaram notícias mais detalhadas em Londres, enquanto aguardavam a entrega dos nossos novos navios de guerra pelos estaleiros britânicos.

 

à memória dos marujos de João Cândido,
o Almirante Negro

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

do tombadilho o capitão despacha a sentença da chibata
(sob o peso morto das medalhas uma lavra dita inválida)

no pelourinho até singelos maus costumes eram remidos
e como no convés se castigava mais a raça pelo desalinho
aquele marinheiro se tornava ali o bode mais malquisto

verdadeiro orgulho entre insígnias e estafetas da flotilha
na cabotagem dos dias debutara como negrilho de faxina

na água doce um cardume de piranhas era tudo que temia
e em terra firme só sonhava com a sua granja de galinhas.

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O BANIMENTO DO IMPERADOR

Nuca é demais recordar: a proclamação da República no Brasil  foi uma espécie de vingança contra a Monarquia que um ano antes havia abolido a escravidão. O golpe dos setores agrários escravocratas e dos militares positivistas produziu essa nossa República iníqua e servil aos interesses mais patrimonialistas. Até aí, nenhuma novidade. Importa, porém, lembrar que Dom Pedro II representava o contrário disso tudo: era essencialmente um Iluminista, defendia ardorosamente a liberdade de imprensa  (ele mesmo era habituado a polemizar sob pseudônimos, curtindo adoidado um perfil fake na arena pública) e sempre foi muito mais do que um simples “amigo” das artes e das ciências. Na Europa, a reputação da sua extraordinária cultura arrancou aplausos admirados de homens como Louis Pasteur, Friedriech Nietzsche, Alfred Nobel, Alexander Grahan Bell e Richard Wagner, entre muitos outros. Ele foi também reconhecido pelos seus vastos e precisos conhecimentos de botânica, astronomia, fotografia, geografia, história universal e línguas mortas e modernas. Era tradutor do hebraico, do grego, do latim e do árabe, além de ser fluente em seis idiomas e ainda capaz de ler em mais cinco, incluindo o tupi e o chinês. Até mesmo o escritor Victor Hugo, um obstinado militante anti-monarquista, não hesitou em atribuir-lhe o epíteto de “neto de Marco Aurélio”, em referência  ao Imperador romano que era também filósofo. Dom Pedro II, entretanto, não era apenas um erudito cultivado. Ele sempre colocou os seus conhecimentos e o seu exemplo intelectual à serviço da Nação em diversos domínios técnicos e políticos. Sua Majestade costumava aparecer de surpresa nas aulas de professores das mais variadas matérias, a fim de lhes averiguar a correção dos conteúdos e dos métodos de ensinamento. Ele declarou certa vez que, se não fosse Imperador, gostaria de ser professor. Banido pelos militares republicanos, Dom Pedro II recusou convites de acolhida oferecidos por todos os nobres europeus que puseram à sua disposição os mais suntuosos castelos. Preferiu um modesto quarto no Hotel Bedford, em Paris, onde veio a morrer em 1891, triste e endividado. No seu armário foi encontrado um pacote lacrado acompanhado de um bilhete com a seguinte instrução: “É terra de meu país, desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha Pátria”.  O poema abaixo, constante do meu primeiro livro, foi escrito após uma emocionada visita ao Hotel Bedford, que fiz com o meu amigo Christian Lynch – o mesmo hotel em que Villa-Lobos viria a se hospedar durante a sua estadia na França. Ele não trata, portanto,  de nenhum anacrônico saudosismo monarquista. Trata apenas de uma tentativa de alcançar uma fração da trágica saudade desse homem que morreu amando o Brasil longe dele, antecipado muitos outros exilados que marcariam a triste história de nossos perseguidos.

 

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O BANIMENTO DO IMPERADOR

nem tâmaras
no regaço das selvas

nem almíscares
na retícula das salivas

nem carmins
no recoito das sulfuras

nem lêmures
no repasto das trufas

nem ébanos
no recôndito das nugas

doravante só melros
entre os abolicionistas

só a cizânia
entre os querubins

só a cárie
dos marfins

só a cavilação
dos bovaristas

só a rosa murcha
dos republicanistas.

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RODIN: O POETA E A PORTA DO INFERNO

A celebérrima escultura intitulada O Pensador (Le Penseur), de Auguste Rodin, chamava-se, originalmente,  O Poeta (Le Poète). Ela representa Dante Alighieri, autor de A divina Comédia, meditando em tormentosa introspecção sobre A Porta do Inferno, uma escultura da qual O Poeta fazia parte, uma complexa encomenda, de 1879, para a entrada do novo Museu de Artes Decorativas de Paris. Obcecado por Michelângelo, Rodin idealizou algo que oferecesse uma eloquente resposta escultórica às Portas do Paraíso, feitas em relevo por Lorenzo Ghiberti, em 1452,  para o batistério de San Giovanni, em Florença. Após uma viagem a Londres, porém, Rodin se deixou impregnar pelo ideal gótico dos pintores da Confraria Pré-Rafaelista e também pelos poemas de William Blake, decidindo-se então por um conjunto sombrio e de altíssima expressão dramática, que, lamentavelmente, jamais seria concluído por falta de financiamento.  A figura d’O Poeta foi aí retirada do conjunto e fundida em escala maior por Eugène Rudier, que acabou por popularizá-la com o nome de O Pensador (cuja imagem é frequentemente associada a um filósofo) graças às suas semelhanças com a obra Il Pensiero, de Michelângelo. Da modelagem à fundição, para os apreciadores da árdua técnica da escultura em bronze, vale prestar muita atenção nas pátinas que O Poeta (ou O Pensador) recebeu nas versões diretamente acabadas pelas mãos de Rodin. Na Exposição Universal de 1900, ele ainda apresentou uma nova maquete, bem mais modesta,  para A Porta do Inferno, que só seria fundida após a sua morte. Abaixo, apresento dois poemas meus que tangenciam esses temas. O primeiro, do livro ARAME FALADO; o segundo, um inédito que descartei na versão final do livro.

DE POETA A PENSADOR

Rodin imagina Dante pensando:
sentado acima da Porta do Inferno
em bronze, a robusta forma de um homem
eterniza-se em pose au-delà de ce monde

mas só depois de moldado e fundido
sobre a pele oca do seu corpo frio
labaredas e pátinas de sulfúricas salivas
despertam a alma que o tonaliza
acabando a fogo aquele Pensador
– ou guardador de demônios.

* * *

O JOVEM PENSADOR

meditando
um vetusto
palimpsesto
arrebatara
o seu conceito
e qual inseto raro
demonstrava-o
na polpa do dedo
dizendo ei-lo

e por saber
(embora efebo)
de certos hábitos
do escaravelho
reclamava-se
peripatético
ao desdenhar
do pensador
de cotovelo
no joelho
e mão direita
sob o queixo

dizia-o à espera
de um laxante
fazer efeito.

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UMBERTO ECO E O MUNDO CLASSIFICADO

 

eco

Certa vez eu assisti a uma conferência disputadíssima do Umberto Eco sobre a presença da luz na arte medieval. Nessas horas a gente vê como um grande intelectual pode ser pop sem se tornar frívolo ao equilibrar o paradoxo da profundidade com leveza. Isso também sem sequer incidir naqueles discursos mistificadores que só aumentam o valor da própria fala, um triste vício desses gurus pós-modernos. Entre medievalistas amadores e curiosos, há uma quantidade crescente de pessoas ávidas por entender o modo de pensar anterior a essa nossa hegemonia massacrante da Ciência.  E aqui se trata daquele prazer de uma bem conduzida espiadela no passado, uma tentativa de compreender que não se inclina para o negar ou para o superar, mas antes para um alcançar os hábitos e os fundamentos de  um mundo que ainda deixa muitos resquícios entre nós. O que faziam aqueles monges na Idade Média com suas listas de anjos e seus alentados elencos de plantas e vícios? Produziam conhecimento. Porém um conhecimento bem diferente da nossa ciência, baseada em testes e experimentos. Faziam eles uma ciência que aprenderam com os gregos, cujo forte nunca foi propriamente a atividade empírica. Com raras exceções (Arquimedes de Siracusa talvez seja a mais célebre) os gregos não eram lá muito simpáticos a laboratórios, testes e exames. Chegavam inclusive a considerar pouco digna a aplicação da matemática à geometria que aparelhava a arquitetura e a engenharia. Entretanto, eles desenvolveram um singular talento para a categorização e a classificação: eram precisos e pacientes observadores, do que nos dá testemunho admirável a minuciosa zoologia de Aristóteles.

Há tempos escrevi um pequeno ensaio (UM AARDVARK SEM DÜRER) abordando a perplexidade nas relações que se estabelecem entre mundo e linguagem no empenho taxonômico de quem se dispõe a organizar o lugar do desconhecido em uma classificação. A questão é realmente fascinante. E sobre ela apresento um excerto de A VERTIGEM DAS LISTAS, livro de Umberto Eco que deu origem a uma exposição com esse mesmo nome no Museu do Louvre, em 2009, cuja curadoria ficou a cargo do próprio Eco. Mostro depois um vídeo também muito interessante, sobretudo para os admiradores da chamada enumeração caótica, expediente bastante usual na poesia surrealista e que procura produzir associações insólitas e efeitos desordenantes em nossa percepção às vezes tão tediosamente apegada aos mais previsíveis conjuntos. Eis o texto de Eco, na tradução de Eliana Aguiar:

“Uma cultura prefere formas fechadas e estáveis quando está certa de sua própria identidade, da mesma forma que quando se depara com uma acumulação confusa de fenômenos mal definidos, começa a fazer listas intermináveis. Há listas por excesso coerente que ainda reúnem entidades que tem algum tipo de parentesco, e há as listas que, em princípio poderiam até não exibir uma extensão exagerada, que são uma reunião de coisas voluntariamente desprovidas de relações recíprocas, tanto que nesses casos costuma-se falar em ‘enumeração caótica’. O exemplo máximo de lista incongruente é o elenco dos animais da enciclopédia chinesa Empório celestial de conhecimentos benévolos, inventada por Borges, segundo a qual os animais se dividiriam em: “(a) pertencentes ao imperador; (b) embalsamados; (c) domesticados; (d) leitões; (e) sereias; (f) fabulosos; (g) cachorros soltos; (h) incluídos na presente classificação; (i) que se agitam como loucos; (j) inumeráveis; (k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; (l) etcétera; (m) que acabam de quebrar o jarrão; (n) que de longe parecem moscas”. Diante das listas de Joyce ou de Borges é evidente que o autor não elaborou listas porque não saberia dizer de outra forma, mas sim porque quer dizer por excedentes, por ybris e gula da palavra, por alegre (raramente obsessiva) ciência do plural e do ilimitado. A lista se transforma num modo de remisturar o mundo, quase colocando em prática aquele convite de Tesauro a acumular propriedades pra fazer brotar novas relações entre coisas distantes ou, em qualquer caso, para colocar um talvez sobre aquelas coisas já aceitas pelo senso comum.” 

APRESENTAÇÃO

AF CAPA FRENTE

De acordo com o belo poema epónimo desta coletânea, o arame invocado pelo título pode ser uma corda musical, um fio elétrico, uma fibra ótica, um caminho de equilibrista ou o próprio fio do discurso. É um arame que se estende longe no espaço e no tempo, donde nos traz instantâneos de afetos e quotidianos, de história e artes, deuses e culturas. É uma performance estonteante, fruto de um casamento venturoso entre muito saber e muito sentir. Mas por esse Arame Falado também circula um humor bufo, sagaz e sarcástico, que sequer recusa os temas mais opulentos aos quais acrescenta o seu grano salis: a tensão entre acaso e providência em Os Dados de Deus, as hierarquias angelicais e a precária situação dos gitanos em O Anjo Cigano, o homem diante da imensidão misteriosa em Os Nomes do Mar. Esses e outros são poemas nascidos de uma argúcia metafórica e metonímica que encontrou uma potente clareza conceitual. Nasce assim uma poesia virtuosa, que extrai o alegórico do signo mais trivial ao se mostrar capaz de ver o mito aquém do mármore. Por isso Marcus Fabiano escreve como quem enuncia, erige e revela. A sua pesquisa vocabular (logo, também plástica e sonora) incorpora-se a uma sintaxe ágil e graciosa, que se exerce tanto na precisão da economia como no derramamento de seus laivos mais pastosos e abstratizantes. Dizem alguns místicos que a matéria é luz abrandada até se tornar palpável. Aqui, de certo modo, temos o processo ao contrário. O universo é convertido em linguagem — linguagem que reinventa sentidos mercê das coisas que ao dizer vai misturando e modulando. Ela vibra, ela voa. Ora é ritmo, percussão, ora é pura melodia, canto ou mantra monástico que não pertence a ninguém. Ora deixa de insistir e apenas existe, só ela, olha que lá vai, fio de luz no crepúsculo.

Richard Zenith

DEZ POEMAS DO LIVRO

 

 

 

MF carimbo

 

 

 

 

AGULHA E PALHEIRO

quem ao palheiro se desse
munido apenas de um ímã
e dali tirasse a tal agulha
que ninguém garimpa

afeito ao tato da cegueira
quem nem a detectasse
por essa magnética patrulha
da improvável coisa miúda

mas sim a resgatasse cravada
feito uma seringa na nádega
como quem podendo a luz do mercúrio
garimpasse afinal sua pepita no escuro

e assim descobrisse pela agulha
o sentido de uma outra procura:
achar no ordinário do palheiro
a dádiva da palha, o aconchego.

 

* * *

 

BASF CHROME

de lamber o carretel
um cabeçote enguiça:
falha o mono/estéreo
no mais que se perde
ao se degravar a vida

e tudo engruvinhava
se lá no pleno cromo
da mastigação faminta
evisceravam-se bobinas
em festivais de tripas

aí eram os grunhidos
da menina possuída
ou um caubói baleado
enrolando a língua?

 

* * *

 

Quando te aproximares da terra, abre os olhos.
Américo Vespúcio, 1503

AVISO AOS NAVEGANTES

no perene provisório o atol é sem atalhos: Abrolhos
e os abra como se ordenasse um Sésamo, bem abertos
mais ainda se as quilhas que singram entranhas do mar
são longas lâminas de foices ceifando contra o fúcsia
onde – avisa Vespúcio – há recifes de floração súbita.

 

* * *

 

PAPAYAS A TUS PIES

palha, madeira ou tijolo:
o lobo mau assoprando
o leitão natalício do porco

(como uma bigorna filosófica
dentro se pode levar peso morto)

Lima, bairro de Miraflores
margeando o Pacífico
um motorista de táxi ensina-me
algumas palavras em quéchua:
ura, quiere decir cabeza
depois mostra uma ponte:
mira, de allá saltan los locos
o los desesperados

y se caen al suelo
a tus pies (ploft!)
como papayas.

 

* * *

 

DRUMMOND, FARMACÊUTICO

na usinagem das anginas, o melhoral:
do neurônio à reles bactéria digestiva
bálsamo para as dores que excruciam

contra as tênias do tédio, o vermífugo
que clareia a fosca alameda dos cinzas
e ladrilha uma vereda com pedrinhas

o velho tônico de combate à anemia:
o ferro do sangue, o mesmo da mina
sabendo a bílis negra da melancolia

e para os achaques de asma ou mialgias
a melhor cânfora que arrepia as plumas
ali onde é mais viva a nossa carne crua.

 

* * *

 

Quem não paga dízimo está roubando de Deus.
Edir Macedo

BARRABÁS E O BISPO

a ligeireza
das pletoras
mais avulta
o seu cariz
de fagulha
apocalíptica:
a opulência
das auras rotas
assestava
só mentiras

apoteóticas
e em operoso
desassombro
arrebanhavam
pobres de espírito
em sermonários
de esquematismos:
de porco e alma
o corpo é lama

só ladravam
aos domingos
os evangelhos
de um bispo
cleptomaníaco
e a Barrabás
esse salmo
atribuíam:
entre o abraço
e o mãos ao alto
a cruz te diz
aceita-me
que te safo.

 

* * *

 

GRILAGEM

os jagunços dizendo que capavam
nada sabiam das bolas de Abelardo:
brandiam páginas sem cabeçalho
de arcabuz engatilhado no sovaco

em um varal de fios desencapados
andrajos espichados pelos caibros:
o couro do pandeiro trina o nervo
e uma mulher berra sobre o berço

no vau desse mato mal emancipado
várias vidas esgravatam sob o taco
da luzida bota do dito proprietário.

 

* * *

 

TUBO DE RAIOS CATÓDICOS

sim, a gravidade é só esse detalhe
se um trapézio emparelha o Pégaso
e o olho é o novo umbigo do limbo
com os ouvidos por tubo digestivo

mera burla nesse cipoal de psicóticos
que se abole à custa de uns colchetes
e mormaços de manás propiciatórios

o teclado no covil dos metacarpos
e logo a luz desnumbra os nimbos:
raios escarificam bruxas e odaliscas
imoladas em fogueiras de vaidades
ou atiçadas pelas próprias crinas

e recolados à tela da TV que somos
as muitas Moiras e um Belerofonte
se revelam no elemento estrôncio.

 

* * *

 

A MÁQUINA DO FUNDO

a pesca escassa, o rio poluído, a quotação da dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva as aves da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.

 

* * *

 

Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre
sus patas de oro y os respondo: El mar lo sabe.
Pablo Neruda

OS NOMES DO MAR

o mar cria seus próprios cavalos e torna-se pedra quando muito gelado. ele não conhece flor nem fogo e mesmo assim pode queimaduras e adornos. tem enguias e mães d’água, corais e algas. o seu chão constela-se de esponjas e anêmonas. o mar é pródigo em estrelas e proventos. mas não tem galhos para os pássaros nem cabelos para os afogados. o mar é um cofre de naufrágios. no seu fundo caminham os escafandristas. entre moreias e meros seus sapatos levitam. o mar é duro e delicado como a carapaça de um crustáceo. em suas angras ele brinca de aquário. ele é aéreo nas nuvens e seu humor sujeita-se à lua. o mar arrasta ou empurra. e seus abismos devoram muitas âncoras. são os brincos que Iemanjá reclama. na praia a onda lambe a areia mas nunca há ânsia. o plâncton escoa na garganta e o píer é um palito que por ela avança. e se um farol a ilumina, ei-la sem amídalas. o mar é inteiro boca e saliva. e nunca cospe, apenas engole. quem pensa em ressaca o enxerga de fora. ou acredita em mentiras. o mar exige sorte além de perícia. o mar salga e salva. seu imenso é um cemitério de almas. o mar não se cala quando quer, por isso é bem maior que o céu. ele dá a volta ao mundo sem andar em círculos e move as nadadeiras do pensamento perdido. o mar pode ser lindo e sinistro. solares e umbrívagos são seus caminhos. e eles recolhem muita espuma pelas bordas. o mar é imêmore e guarda todas as horas. e só chega à costa para que alguém possa vê-lo. o homem que o vê é um peixe seco. de ar e sangue, e sem guelras. o homem é igual ao mar, concebe e faz guerras. deus separou a porção seca do mar e pôs o homem a viver nela. a terra separa as águas como a vontade faz com os homens. há nela duas árvores: a do conhecimento e a da vida. a lei é que certas frutas vermelhas são proibidas. para ir de um lado a outro o homem tem pés. para atravessar o mar, navios e Moisés. em terra o homem é o lobo do homem. já o lobo marinho é bem mais tranquilo. é mimoso feito um ouriço recém-nascido e quando cresce não promete espinhos. frente ao mar o homem tem arroubos divinos: caminhar sobre as águas, multiplicar os peixes. mas sua vida terrestre é de carne e leite. o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas. o homem brinca de deus mas vive no tempo. e no mar ele nomeia seus medos: mar morto, mar negro, mar vermelho. o homem é água e enredo.

 

* * *

 

Alguns dos poemas acima foram originalmente publicados nas revistas literárias Modo de Usar & Co., Zunái e Eutomia, às quais o autor agradece na pessoa de seus editores Ricardo Domeneck, Claudio Daniel e Sueli Cavendish.

 

 

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