DEZ POEMAS DO LIVRO

por Marcus Fabiano

 

 

 

MF carimbo

 

 

 

 

AGULHA E PALHEIRO

quem ao palheiro se desse
munido apenas de um ímã
e dali tirasse a tal agulha
que ninguém garimpa

afeito ao tato da cegueira
quem nem a detectasse
por essa magnética patrulha
da improvável coisa miúda

mas sim a resgatasse cravada
feito uma seringa na nádega
como quem podendo a luz do mercúrio
garimpasse afinal sua pepita no escuro

e assim descobrisse pela agulha
o sentido de uma outra procura:
achar no ordinário do palheiro
a dádiva da palha, o aconchego.

 

* * *

 

BASF CHROME

de lamber o carretel
um cabeçote enguiça:
falha o mono/estéreo
no mais que se perde
ao se degravar a vida

e tudo engruvinhava
se lá no pleno cromo
da mastigação faminta
evisceravam-se bobinas
em festivais de tripas

aí eram os grunhidos
da menina possuída
ou um caubói baleado
enrolando a língua?

 

* * *

 

Quando te aproximares da terra, abre os olhos.
Américo Vespúcio, 1503

AVISO AOS NAVEGANTES

no perene provisório o atol é sem atalhos: Abrolhos
e os abra como se ordenasse um Sésamo, bem abertos
mais ainda se as quilhas que singram entranhas do mar
são longas lâminas de foices ceifando contra o fúcsia
onde – avisa Vespúcio – há recifes de floração súbita.

 

* * *

 

PAPAYAS A TUS PIES

palha, madeira ou tijolo:
o lobo mau assoprando
o leitão natalício do porco

(como uma bigorna filosófica
dentro se pode levar peso morto)

Lima, bairro de Miraflores
margeando o Pacífico
um motorista de táxi ensina-me
algumas palavras em quéchua:
ura, quiere decir cabeza
depois mostra uma ponte:
mira, de allá saltan los locos
o los desesperados

y se caen al suelo
a tus pies (ploft!)
como papayas.

 

* * *

 

DRUMMOND, FARMACÊUTICO

na usinagem das anginas, o melhoral:
do neurônio à reles bactéria digestiva
bálsamo para as dores que excruciam

contra as tênias do tédio, o vermífugo
que clareia a fosca alameda dos cinzas
e ladrilha uma vereda com pedrinhas

o velho tônico de combate à anemia:
o ferro do sangue, o mesmo da mina
sabendo a bílis negra da melancolia

e para os achaques de asma ou mialgias
a melhor cânfora que arrepia as plumas
ali onde é mais viva a nossa carne crua.

 

* * *

 

Quem não paga dízimo está roubando de Deus.
Edir Macedo

BARRABÁS E O BISPO

a ligeireza
das pletoras
mais avulta
o seu cariz
de fagulha
apocalíptica:
a opulência
das auras rotas
assestava
só mentiras

apoteóticas
e em operoso
desassombro
arrebanhavam
pobres de espírito
em sermonários
de esquematismos:
de porco e alma
o corpo é lama

só ladravam
aos domingos
os evangelhos
de um bispo
cleptomaníaco
e a Barrabás
esse salmo
atribuíam:
entre o abraço
e o mãos ao alto
a cruz te diz
aceita-me
que te safo.

 

* * *

 

GRILAGEM

os jagunços dizendo que capavam
nada sabiam das bolas de Abelardo:
brandiam páginas sem cabeçalho
de arcabuz engatilhado no sovaco

em um varal de fios desencapados
andrajos espichados pelos caibros:
o couro do pandeiro trina o nervo
e uma mulher berra sobre o berço

no vau desse mato mal emancipado
várias vidas esgravatam sob o taco
da luzida bota do dito proprietário.

 

* * *

 

TUBO DE RAIOS CATÓDICOS

sim, a gravidade é só esse detalhe
se um trapézio emparelha o Pégaso
e o olho é o novo umbigo do limbo
com os ouvidos por tubo digestivo

mera burla nesse cipoal de psicóticos
que se abole à custa de uns colchetes
e mormaços de manás propiciatórios

o teclado no covil dos metacarpos
e logo a luz desnumbra os nimbos:
raios escarificam bruxas e odaliscas
imoladas em fogueiras de vaidades
ou atiçadas pelas próprias crinas

e recolados à tela da TV que somos
as muitas Moiras e um Belerofonte
se revelam no elemento estrôncio.

 

* * *

 

A MÁQUINA DO FUNDO

a pesca escassa, o rio poluído, a quotação da dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva as aves da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.

 

* * *

 

Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre
sus patas de oro y os respondo: El mar lo sabe.
Pablo Neruda

OS NOMES DO MAR

o mar cria seus próprios cavalos e torna-se pedra quando muito gelado. ele não conhece flor nem fogo e mesmo assim pode queimaduras e adornos. tem enguias e mães d’água, corais e algas. o seu chão constela-se de esponjas e anêmonas. o mar é pródigo em estrelas e proventos. mas não tem galhos para os pássaros nem cabelos para os afogados. o mar é um cofre de naufrágios. no seu fundo caminham os escafandristas. entre moreias e meros seus sapatos levitam. o mar é duro e delicado como a carapaça de um crustáceo. em suas angras ele brinca de aquário. ele é aéreo nas nuvens e seu humor sujeita-se à lua. o mar arrasta ou empurra. e seus abismos devoram muitas âncoras. são os brincos que Iemanjá reclama. na praia a onda lambe a areia mas nunca há ânsia. o plâncton escoa na garganta e o píer é um palito que por ela avança. e se um farol a ilumina, ei-la sem amídalas. o mar é inteiro boca e saliva. e nunca cospe, apenas engole. quem pensa em ressaca o enxerga de fora. ou acredita em mentiras. o mar exige sorte além de perícia. o mar salga e salva. seu imenso é um cemitério de almas. o mar não se cala quando quer, por isso é bem maior que o céu. ele dá a volta ao mundo sem andar em círculos e move as nadadeiras do pensamento perdido. o mar pode ser lindo e sinistro. solares e umbrívagos são seus caminhos. e eles recolhem muita espuma pelas bordas. o mar é imêmore e guarda todas as horas. e só chega à costa para que alguém possa vê-lo. o homem que o vê é um peixe seco. de ar e sangue, e sem guelras. o homem é igual ao mar, concebe e faz guerras. deus separou a porção seca do mar e pôs o homem a viver nela. a terra separa as águas como a vontade faz com os homens. há nela duas árvores: a do conhecimento e a da vida. a lei é que certas frutas vermelhas são proibidas. para ir de um lado a outro o homem tem pés. para atravessar o mar, navios e Moisés. em terra o homem é o lobo do homem. já o lobo marinho é bem mais tranquilo. é mimoso feito um ouriço recém-nascido e quando cresce não promete espinhos. frente ao mar o homem tem arroubos divinos: caminhar sobre as águas, multiplicar os peixes. mas sua vida terrestre é de carne e leite. o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas. o homem brinca de deus mas vive no tempo. e no mar ele nomeia seus medos: mar morto, mar negro, mar vermelho. o homem é água e enredo.

 

* * *

 

Alguns dos poemas acima foram originalmente publicados nas revistas literárias Modo de Usar & Co., Zunái e Eutomia, às quais o autor agradece na pessoa de seus editores Ricardo Domeneck, Claudio Daniel e Sueli Cavendish.

 

 

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