UMBERTO ECO E O MUNDO CLASSIFICADO

por Marcus Fabiano

 

eco

Certa vez eu assisti a uma conferência disputadíssima do Umberto Eco sobre a presença da luz na arte medieval. Nessas horas a gente vê como um grande intelectual pode ser pop sem se tornar frívolo ao equilibrar o paradoxo da profundidade com leveza. Isso também sem sequer incidir naqueles discursos mistificadores que só aumentam o valor da própria fala, um triste vício desses gurus pós-modernos. Entre medievalistas amadores e curiosos, há uma quantidade crescente de pessoas ávidas por entender o modo de pensar anterior a essa nossa hegemonia massacrante da Ciência.  E aqui se trata daquele prazer de uma bem conduzida espiadela no passado, uma tentativa de compreender que não se inclina para o negar ou para o superar, mas antes para um alcançar os hábitos e os fundamentos de  um mundo que ainda deixa muitos resquícios entre nós. O que faziam aqueles monges na Idade Média com suas listas de anjos e seus alentados elencos de plantas e vícios? Produziam conhecimento. Porém um conhecimento bem diferente da nossa ciência, baseada em testes e experimentos. Faziam eles uma ciência que aprenderam com os gregos, cujo forte nunca foi propriamente a atividade empírica. Com raras exceções (Arquimedes de Siracusa talvez seja a mais célebre) os gregos não eram lá muito simpáticos a laboratórios, testes e exames. Chegavam inclusive a considerar pouco digna a aplicação da matemática à geometria que aparelhava a arquitetura e a engenharia. Entretanto, eles desenvolveram um singular talento para a categorização e a classificação: eram precisos e pacientes observadores, do que nos dá testemunho admirável a minuciosa zoologia de Aristóteles.

Há tempos escrevi um pequeno ensaio (UM AARDVARK SEM DÜRER) abordando a perplexidade nas relações que se estabelecem entre mundo e linguagem no empenho taxonômico de quem se dispõe a organizar o lugar do desconhecido em uma classificação. A questão é realmente fascinante. E sobre ela apresento um excerto de A VERTIGEM DAS LISTAS, livro de Umberto Eco que deu origem a uma exposição com esse mesmo nome no Museu do Louvre, em 2009, cuja curadoria ficou a cargo do próprio Eco. Mostro depois um vídeo também muito interessante, sobretudo para os admiradores da chamada enumeração caótica, expediente bastante usual na poesia surrealista e que procura produzir associações insólitas e efeitos desordenantes em nossa percepção às vezes tão tediosamente apegada aos mais previsíveis conjuntos. Eis o texto de Eco, na tradução de Eliana Aguiar:

“Uma cultura prefere formas fechadas e estáveis quando está certa de sua própria identidade, da mesma forma que quando se depara com uma acumulação confusa de fenômenos mal definidos, começa a fazer listas intermináveis. Há listas por excesso coerente que ainda reúnem entidades que tem algum tipo de parentesco, e há as listas que, em princípio poderiam até não exibir uma extensão exagerada, que são uma reunião de coisas voluntariamente desprovidas de relações recíprocas, tanto que nesses casos costuma-se falar em ‘enumeração caótica’. O exemplo máximo de lista incongruente é o elenco dos animais da enciclopédia chinesa Empório celestial de conhecimentos benévolos, inventada por Borges, segundo a qual os animais se dividiriam em: “(a) pertencentes ao imperador; (b) embalsamados; (c) domesticados; (d) leitões; (e) sereias; (f) fabulosos; (g) cachorros soltos; (h) incluídos na presente classificação; (i) que se agitam como loucos; (j) inumeráveis; (k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; (l) etcétera; (m) que acabam de quebrar o jarrão; (n) que de longe parecem moscas”. Diante das listas de Joyce ou de Borges é evidente que o autor não elaborou listas porque não saberia dizer de outra forma, mas sim porque quer dizer por excedentes, por ybris e gula da palavra, por alegre (raramente obsessiva) ciência do plural e do ilimitado. A lista se transforma num modo de remisturar o mundo, quase colocando em prática aquele convite de Tesauro a acumular propriedades pra fazer brotar novas relações entre coisas distantes ou, em qualquer caso, para colocar um talvez sobre aquelas coisas já aceitas pelo senso comum.” 

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