RODIN: O POETA E A PORTA DO INFERNO

por Marcus Fabiano

A celebérrima escultura intitulada O Pensador, de Auguste Rodin, chamava-se, originalmente,  O Poeta. Ela representa Dante Alighieri, autor de A DIVINA COMÉDIA, meditando em tormentosa introspecção sobre a Porta do Inferno.  A escultura O Poeta era parte de uma complexa encomenda, de 1879, para a entrada do novo Museu de Artes Decorativas de Paris. Obcecado por Michelangelo, Rodin idealizou algo que oferecesse uma eloquente resposta escultórica às Portas do Paraíso, feitas em relevo por Lorenzo Ghiberti, em 1452,  para o batistério de San Giovanni, em Florença. Após uma viagem a Londres, porém, Rodin se deixou impregnar pelo ideal gótico dos pintores da Confraria Pré-Rafaelista e também pelos poemas de William Blake, decidindo-se então por um conjunto sombrio e de altíssima expressão dramática, que, lamentavelmente, jamais seria concluído por falta de financiamento.  A figura d’O Poeta foi aí retirada do conjunto e, fundida em escala maior, acabou popularizando-se como O Pensador, cuja imagem é frequentemente associada a um filósofo.  Da modelagem à fundição, para os apreciadores da árdua técnica da escultura em bronze, vale prestar muita atenção nas pátinas que O Poeta (ou O Pensador) recebeu nas versões diretamente acabadas pelas mãos de Rodin. Na Exposição Universal de 1900, ele ainda apresentou uma nova maquete, bem mais modesta,  para A Porta do Inferno, que só seria fundida após a sua morte. Abaixo, apresento dois poemas meus que tangenciam esses temas. O primeiro, do livro ARAME FALADO; o segundo, um inédito que descartei na versão final do livro.

DE POETA A PENSADOR

Rodin imagina Dante pensando:
sentado acima da Porta do Inferno
em bronze, a robusta forma de um homem
eterniza-se em pose au-delà de ce monde

mas só depois de moldado e fundido
sobre a pele oca do seu corpo frio
labaredas e pátinas de sulfúricas salivas
despertam a alma que o tonaliza
acabando a fogo aquele Pensador
– ou guardador de demônios.

* * *

O JOVEM PENSADOR

meditando
um vetusto
palimpsesto
arrebatara
o seu conceito
e qual inseto raro
demonstrava-o
na polpa do dedo
dizendo ei-lo

e por saber
(embora efebo)
de certos hábitos
do escaravelho
reclamava-se
peripatético
ao desdenhar
do pensador
de cotovelo
no joelho
e mão direita
sob o queixo

dizia-o à espera
de um laxante
fazer efeito.

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