O BANIMENTO DO IMPERADOR

por Marcus Fabiano

Nuca é demais recordar: a proclamação da República no Brasil  foi uma espécie de vingança contra a Monarquia que um ano antes havia abolido a escravidão. O golpe dos setores agrários escravocratas e dos militares positivistas produziu essa nossa República iníqua e servil aos interesses mais patrimonialistas. Até aí, nenhuma novidade. Importa, porém, lembrar que Dom Pedro II representava o contrário disso tudo: era essencialmente um Iluminista, defendia ardorosamente a liberdade de imprensa  (ele mesmo era habituado a polemizar sob pseudônimos, curtindo adoidado um perfil fake na arena pública) e sempre foi muito mais do que um simples “amigo” das artes e das ciências. Na Europa, a reputação da sua extraordinária cultura arrancou aplausos admirados de homens como Louis Pasteur, Friedriech Nietzsche, Alfred Nobel, Alexander Grahan Bell e Richard Wagner, entre muitos outros. Ele foi também reconhecido pelos seus vastos e precisos conhecimentos de botânica, astronomia, fotografia, geografia, história universal e línguas mortas e modernas. Era tradutor do hebraico, do grego, do latim e do árabe, além de ser fluente em seis idiomas e ainda capaz de ler em mais cinco, incluindo o tupi e o chinês. Até mesmo o escritor Victor Hugo, um obstinado militante anti-monarquista, não hesitou em atribuir-lhe o epíteto de “neto de Marco Aurélio”, em referência  ao Imperador romano que era também filósofo. Dom Pedro II, entretanto, não era apenas um erudito cultivado. Ele sempre colocou os seus conhecimentos e o seu exemplo intelectual à serviço da Nação em diversos domínios técnicos e políticos. Sua Majestade costumava aparecer de surpresa nas aulas de professores das mais variadas matérias, a fim de lhes averiguar a correção dos conteúdos e dos métodos de ensinamento. Ele declarou certa vez que, se não fosse Imperador, gostaria de ser professor. Banido pelos militares republicanos, Dom Pedro II recusou convites de acolhida oferecidos por todos os nobres europeus que puseram à sua disposição os mais suntuosos castelos. Preferiu um modesto quarto no Hotel Bedford, em Paris, onde veio a morrer em 1891, triste e endividado. No seu armário foi encontrado um pacote lacrado acompanhado de um bilhete com a seguinte instrução: “É terra de meu país, desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha Pátria”.  O poema abaixo, constante do meu primeiro livro, foi escrito após uma emocionada visita ao Hotel Bedford, que fiz com o meu amigo Christian Lynch – o mesmo hotel em que Villa-Lobos viria a se hospedar durante a sua estadia na França. Ele não trata, portanto,  de nenhum anacrônico saudosismo monarquista. Trata apenas de uma tentativa de alcançar uma fração da trágica saudade desse homem que morreu amando o Brasil longe dele, antecipado muitos outros exilados que marcariam a triste história de nossos perseguidos.

 

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O BANIMENTO DO IMPERADOR

nem tâmaras
no regaço das selvas

nem almíscares
na retícula das salivas

nem carmins
no recoito das sulfuras

nem lêmures
no repasto das trufas

nem ébanos
no recôndito das nugas

doravante só melros
entre os abolicionistas

só a cizânia
entre os querubins

só a cárie
dos marfins

só a cavilação
dos bovaristas

só a rosa murcha
dos republicanistas.

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