O DRAGÃO DO MAR E O ALMIRANTE NEGRO

por Marcus Fabiano

A bela ilustração acima foi feita por Antônio Augusto Bueno para o ARAME FALADO. Ela refere-se ao poema que está ao final dessa postagem, ENCOURAÇADO MINAS GERAIS, cujo título provém do nome do navio de combate tomado pelos marujos comandados pelo marinheiro João Cândido Felisberto, o Almirante Negro,  na Revolta da Chibata, em 1910. Durante a crise que levaria o país ao Estado de Sítio, os altos oficiais da Marinha, alimentados por teorias raciais, duvidavam que os negros tivessem inteligência suficiente para manobrar a novíssima tecnologia das embarcações bélicas recentemente encomendados pelo Brasil à Grã Bretanha. Mas essa dúvida só durou até o primeiro disparo de advertência. João Cândido aterrorizaria o Rio de Janeiro com tiros de canhão desfechados desde a Baía de Guanabara sobre o Palácio do Catete e o Congresso Nacional. Ele e os revoltosos reclamavam assim a eliminação definitiva dos castigos corporais (açoites) que ainda subsistiam no código de conduta da Marinha, voltados à humilhação pública dos marujos, na maioria negros e mulatos pobres, em sessões sádicas nas quais os oficiais portavam seus uniformes de gala. A Revolta da Chibata foi a conquista de nossa segunda Abolição. E aliás, ao contrário do que se imagina, mesmo a Abolição de 1888 não foi uma simples concessão da Monarquia: foi uma vitória de homens aguerridos, escravos e libertos, brancos e pretos. Um dos precursores dessa luta foi Francisco José do Nascimento, o DRAGÃO DO MAR, o jangadeiro de Canoa Quebrada que heroicamente impediu o transbordo dos navios negreiros nos portos do Ceará, lutando também pela libertação de todos os cativos naquela província, o que aconteceria já em 1883, portanto cinco anos antes da Lei Áurea. O nome do DRAGÃO DO MAR é lembrado na música de Aldir Blanc e João Bosco em homenagem a João Cândido, O MESTRE SALA DOS MARES. Aqui nesse link pode-se acompanhar a “cirurgia” imposta pela censura da Ditadura Militar à letra da canção que acabaria por se consagrar na magistral interpretação de Elis Regina. Vale muito à pena pesquisar a história da Revolta da Chibata que, com a traição de Hermes da Fonseca, acabou com o massacre de mais de 200 marujos e a expulsão de outros 2000 homens da Marinha do Brasil. João Cândido sobreviveu à prisão na Ilha das Cobras e permaneceu internado como louco durante anos, voltando a viver na miséria até 1969. Ele só seria reabilitado em 2008, sob a nítida desaprovação do alto oficialato da Marinha, que ainda o tem por um amotinado. E como a história da resistência à opressão é uma só, lembro que a principal influência da Revolta da Chibata foi a sublevação dos marinheiros russos do Encouraçado Potemkim, ocorrida em 1905, a respeito da qual os marujos brasileiros tomaram notícias mais detalhadas em Londres, enquanto aguardavam a entrega dos nossos novos navios de guerra pelos estaleiros britânicos.

 

à memória dos marujos de João Cândido,
o Almirante Negro

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

do tombadilho o capitão despacha a sentença da chibata
(sob o peso morto das medalhas uma lavra dita inválida)

no pelourinho até singelos maus costumes eram remidos
e como no convés se castigava mais a raça pelo desalinho
aquele marinheiro se tornava ali o bode mais malquisto

verdadeiro orgulho entre insígnias e estafetas da flotilha
na cabotagem dos dias debutara como negrilho de faxina

na água doce um cardume de piranhas era tudo que temia
e em terra firme só sonhava com a sua granja de galinhas.

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