UM POEMA DAS CAVERNAS

A REVISTA METÁFORA estampou, no seu número 16, um poema inédito meu: O BISONTE DE ALTAMIRA, uma conversa, mas não apenas, com El Bisonte, de J.L. Borges.  Acredito seja a primeira vez que eu empregue uma letra maiúscula no começo de uma estrofe – e por razões bem distintas das recomendações ortográficas. Altamira é uma fantástica gruta com pinturas da era paleolítica que variam entre 35.000 e 13.000 anos, localizada na Cantábria, Espanha. Em santuários arqueológicos como este, ou como no Parque Nacional Serra da Capivara (Piauí), em Lascaux (a chamada “Capela Sistina” da arte rupestre) ou no recentemente descoberto complexo espeleológico de Chauvet (filmado por Werner Herzog em A Caverna dos Sonhos Esquecidos), sobressai uma vertiginosa mistura de arrebatamento com perplexidade: a que título nossos ancestrais fariam e adorariam (?) aquelas imagens fixadas em cavernas que não eram usadas como habitação? Isso jamais se saberá ao certo. Mas ao menos uma coisa é segura: dentre as diversas bestas da macrofauna pré-histórica, a recorrente representação dos bovídeos está decididamente eternizada na remotíssima origem pictogrâmica de nosso atual alfabeto, derivado do proto-sinaítico, incrivelmente já composto de 23 símbolos.

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O BISONTE DE ALTAMIRA

 

A fera fornida de uma locomotiva herbívora: potestade e butim de proteínas. gozando dos reais arrimos da caça exclusiva, o bisonte lambe no córrego a chaga aberta pela flecha cega. acompanha o homem da pólvora à pedra. vão suas peles sobre corpos e frestas, despojos sob neves de inúmeras eras. de faro bufante e olhos gélidos, ele enxerga cheiros até na relva mais úmida. aos cercos da caça nem sempre sucumbe. ouve ao longe o passo oculto que o espreita e desconfia ruminando gravetos: ossos que ele pisoteia sob as cotas da lã feita de sua juba. o bisonte foi o leão bovino das tundras.

em sua bolha de couro e sangue, o bisonte entre manadas de carcaças. de suas omoplatas surgiram machados. o Minotauro e o Ápis foram seus melhores disfarces, bem como os troféus dos taxidermistas mais hábeis. o apojo de seu leite consagrou a primeira libação à tauromaquia. quem o bebe em seus cornos inventa o copo e a xícara. sua ossatura é inteiramente granítica: quartzo, feldspato e mica. quando estático armazena-se em fúria e porfia. zaino, um bisonte em seu próprio sangue se pinta.

no touro do holocausto, no búfalo do arado ou na bossa do zebu no pasto, a longa estirpe do bisonte, a prima letra de todo nome: o áleph, o alif e o alfa. semítico, grego ou fenício, em carne e osso o bisonte é começo e princípio de um : “A” já sempre escrito desapercebido, domesticado e dócil, mugindo como a mansa vaca de um sítio. mas ocultando a dura passagem do vulto ao signo, nosso estreito de Bering entre a caverna e o livro.

LETRA A