SOBRE OS GRANDES ANTÔNIOS

por Marcus Fabiano

Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rêmora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira) se veem e choram na terra tantos naufrágios.
Antônio Vieira, Sermão de Santo Antônio aos Peixes


CARTA À POETA QUE EXAMINA SEUS MEDOS, OU GLOSA SOB OS AUSPÍCIOS DA LÍNGUA DE SANTO ANTÔNIO DE LISBOA (TAMBÉM DITO DE PÁDUA) QUE OPEROU MILAGRES QUANDO FOI PREGAR AOS PEIXES E TOMAR SOPA ENVENENADA

você já deveria saber que no meu bloco desfilam balões e bolcheviques, fuzis e margaridas. e só agora nota essas fitas alegóricas ao redor do andor? meu olho não é seco, é de terra. e se uma água o molha não vem da íris e nem é nada cristalina. daí esse barro, essa lama, ante a qual erra muitíssimo quem a pense suja. não está sempre aí, ela surge, como argila. dessa mesma que é feito o homem e suas costelas, pois as barras dessas jaulas que no peito levam nossos tigres não detêm o sopro de um colibri. não é só da carne que lhe falo. é também da alma, da miraculosa língua de santo Antônio, até hoje conservada intacta. quem prega sacrifícios se santifica. mas será que vive ou se mantém cativo? também o santo vai à praia se o povo lhe dá as costas. e então a sua palavra faz piscosas certas águas antes só de algas. porém nem sempre o remorso previne erros com cautelas. no miracolo della minestra a fé mudou o veneno em alimento quando Antônio disse ao agiota: por vossa alma eu tomo essa peçonha de cobra. aí convém aceitar a humana realidade e arriscar o ímpeto apesar da falha. a soberba doma a calma se a invocação de um santo indaga: tentando se é tentado? embora peque e morra, o santo é mais forte porque acredita. ele acode na hora em que menos se imagina. a sua fé ama enquanto desafia. ela é a fome de um pão ainda sem seu trigo. a confiança que une a graça ao pedido. é pura promessa e espera porque conhece o lugar onde a semente guarda o tempo. sei e sabemos que é do humano tanto a raiva quanto o ciúme. e que por tão pouco pode a vida se tornar mais ácida, afinal toda carne apodrece e passa. mas, enquanto aguarda, a palavra é mágica. e ela fica, não finge que acredita. a luz é boa mesmo se às vezes o seu brilho é duro, sobretudo quando reúnam, junto à santa língua, diamante e dinamite. a fé transmuta quem dela se ilumine. e aclara muito aquele que duvida. ela não entende, não explica, não decifra. só redime e nem sempre é macia. e se remove até montanhas, não lhe seria fácil demolir a esfinge? contudo a fé a trata como se inexistisse. o seu mistério não é charada nem enigma. não devora nem adivinha. só inspira. se é fácil? quem disse? no bem querer, o simples é ainda mais difícil.

lingua

Detalhe do relicário com a língua de Santo Antônio em Pádua, Itália.


UM COMENTÁRIO SOBRE O POEMA

Durante a Idade Média da Europa, os pobres que deviam a agiotas eram impiedosamente encarcerados e chegavam a ter as esposas forçadas a se prostituírem para o resgate de suas dívidas. Centenas de famílias de plebeus foram assim aniquiladas. Era a crueldade do “capitalismo” da época. Isso aconteceu até que, em 1231, em Pádua, um português, jovem jurista e exímio orador, tivesse uma ideia: organizar frentes de trabalho de monges para comprar a libertação desses homens e aliviar o sofrimento de suas esposas. Com a força dos próprios braços e sermões implacáveis contra a avareza e a usura, ele moveu uma campanha vigorosa contra os agiotas e a infâmia da prisão civil por dívidas, conquistando uma mudança pioneira na legislação feudal. Tratava-se do nobre português Fernando Martim de Bulhões, que recebera de Francisco de Assis o nome de Antônio, em lembrança a outro Antonius que lhe antecedera por quase 1000 anos: Santo Antão, o eremita do deserto egípcio (251-356 dC).

Por ter se tornado conhecido como Santo Antônio de Pádua, lugar próximo de onde morreu, em 1232, muitos pensam até hoje que ele seja italiano. Mas não: a sua língua, que milagrosamente jamais apodreceu, é uma genuína língua portuguesa, por isso ele é também chamado Santo Antônio de Lisboa, cidade onde nasceu em 1195.  O Papa Leão XIII autorizou também essa sua designação, conferindo-lhe o título de Doutor da Igreja e o epíteto de Santo de Todo o Mundo por seu incrível périplo evangelizador.  Em sua homenagem seriam batizados dois dos maiores escritores de nossa Língua: o jesuíta Antônio Vieira e o poeta Fernando Antônio Nogueira Pessoa, que lhe rende dupla homenagem, tendo nascido exatamente no seu dia, 13 de junho. Aliás, Pessoa chegou a dedicar ao seu patronímico o poema abaixo, bastante iconoclástico.

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

A discussão por trás do complexo episódio histórico da abolição da prisão civil por dívidas não é uma mera questiúncula teológica: ela é autenticamente filosófica. E, ao atravessar os séculos, alcançaria ninguém menos que Karl Marx com a formulação de sua incômoda pergunta: afinal, qual seria a origem da riqueza humana? Alguns, já impressionados com o surgimento dos bancos em Veneza, responderiam: a riqueza humana provem do lucro com os juros, do anatocismo, enfim, do preço do tempo. Outros, seguindo Santo Agostinho, ofereceram uma resposta bem mais complexa e ousada: a origem da riqueza humana é o trabalho, em especial aquele sobre os meios de produção, coisa que, no mundo medieval, resumia-se essencialmente à terra agricultável. O poema acima, de caráter pseudoanagógico, ao invocar o  Sermão de Santo Antônio aos Peixes, de Vieira, discute o problema da fé em um mundo bem anterior ao nosso conceito racionalista de ciência. É a minha singela homenagem àquele imenso Antônio em um país que, desconhecendo sua história, o mantém na baixíssima conta de um mero santo casamenteiro. Para melhor ambientar o leitor nessa atmosfera, digamos, hagiográfica, sugiro ainda um trecho do filme  Sant’Antonio di Padova, de Umberto Marino, no qual se pode conferir, à altura de 01:20:32 minutos, a cena do célebre milagre da sopa  (miracolo della minestra).

 

 

 

 

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