ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: julho, 2013

NIHIL & PAU BRASIL

Captura de tela 2013-07-19 às 18.43.00

A FAVELA DO CEMITÉRIO

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CAIRO, CIDADE DOS MORTOS

a asfixia de um hipogrifo desaba
em um tropel de uivos e ganidos
quando a cavalgada da cama sobre o assoalho
silencia o concerto matinal dos gatos:
cabelos no lençol branco (cordas de piano)
e rubras espelhações no assalto a um banco de sangue
vão se entocando em cascos de mulita e cluster

enxotando djinns com rezas e bengalas
duas mulheres de niqab sob a cara das máscaras:
elas pulam a corda das calamidades como assírios
que sonhassem todas moscas sobre um grão de açúcar
em negrumes de querubins, ondinas e tartufos
cortejando um Pã sem flauta pelo longo flúmen

aquele era o dia de rebuscar a entrega:
a língua afiada em um coração de pedra
e os minaretes rumo à cidadela de Saladino
dardejavam uma ordenha de cabras arregaladas
por dois mil farolhos que nem pousavam
em tapetes e almofadas de musselina
sepultando as vetustas tumbas magníficas
de estirpes mamelucas e otomanas já extintas

a lentos passos largos a caravana dos dromedários
abismava-se de um pastor que apascentasse porcos:
mas eram despojos de quando a sombra queima em close
e azeda ainda mais um gosto de kafir no queijo podre

faraós e cairotas: o Nilo revive pedras mortas
e sobre trilhos de velhas cicatrizes uma felouque
vela por aquele corte aberto em palco e púlpito
um oásis de ossos secando a pupila dos vultos.

* * * * *

O Egito do poema acima está no capítulo O ALFANJE E A FOICE, do ARAME FALADO, dedicado aos Orientes islâmicos e sino-asiáticos. Ele trata da imensa favela que visitei na Cidade do Cairo, formada pela ocupação de um cemitério, desde os anos 1960, por mais de 500.000 pessoas. É uma espécie de comunidade da Maré instalada em uma necrópole de nobres da corte do Sultão Turco Otomano, que não fica muito distante das pirâmides e da esfinge situadas na planície de Gizé. A Cidade dos Mortos é habitada por pobres desalojados, catadores de detritos em sua grande maioria. Entre outras palavras do mundo árabe-muçulmano que poderão soar estranhas ao leitor, o poema  se refere ao do culto dos djins (espíritos) no Islã.  Se você nunca ouviu falar disso, sugiro que assista abaixo ao espetacular plano contínuo do filme EXILS, de Tony Gatlif. Qualquer semelhança com o nosso candomblé ou a nossa umbanda por certo não será uma mera coincidência.  E como grande parte das minhas fotos do Cairo estão sepultadas em um HD pifado, espero que não para toda a eternidade, a imagem que abre essa postagem é da autoria  de Robert Bourgoing.

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