ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: agosto, 2013

O NOBEL E A ISLAMOFOBIA DO CONTADOR DE PAUZINHOS

 

Vista e detalhe do pátio da medersa de Fez, Marrocos.

Detalhe e vista do pátio da medersa de Fez, Marrocos.


AL MAMUN

بيت الحكمة

envolto em
finos tecidos
o sereno califa
ria seu sorriso
de algarismos:
ria-se daqueles
homens brutos
contando números
como palitos

eles ignoravam
o ábaco e o zéfiro
conhecidos por
qualquer beduíno
desconheciam
a feitura do papiro
e só sabiam
de uns escassos
pergaminhos

o seu messias
igualavam-no
ao próprio Alá
e sempre em grego
o diziam cristo
muito assustados
iam por Bagdá
sujos e famintos.

.

.

*  *  *

Com as recentes tolices de Dawkins, a superioridade da cultura ao determinismo biológico volta à ordem do dia. Em um século cada vez mais suscetível aos pseudocientificismos, as armas se renovam, mas o enfrentamento é antigo já de décadas. O mesmo combate contra o colonialismo, a escravidão e os extermínios étnicos, herdeiros intolerantes das primeiras cruzadas cristãs contra os muçulmanos. Agora o desvirtuamento de estatísticas encontra o racismo etnocêntrico que se disfarça sob supostos abalizamentos acadêmicos. Isso enquanto acompanhamos estarrecidos os interesses geopolíticos disseminarem um caos genocida pela infraestrutura e as instituições de diversos países árabes forçados a uma acelerada ocidentalização à maneira norte-americana. Não é gratuito, portanto, o reaparecimento, justo nesse instante delicado, de charlatães dispostos a assombrar o mundo esclarecido com argumentos constrangedoramente aparentados com o pior lombrosianismo, esse pai biológico da mentalidade nazista. Decidi então publicar aqui o poema AL MAMUN, com o texto que abaixo se segue, como uma espécie de réplica à manifestação islamofóbica de Richard Dawkins que teve eco no Brasil pelo insiodioso artigo DEMOGRAFIA DO NOBEL, da lavra de Hélio Schwartsman e que pode ser lido nesse link:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2013/08/1324396-demografia-do-nobel.shtml  .

O poema acima está situado no capítulo O ALFANJE E A FOICE, de meu livro ARAME FALADO. Trata-se de um capítulo no qual estabeleço um diálogo com diversos elementos dos orientes árabe-muçulmano e sino-asiático. Em razão disso, o meu objetivo estético  foi o de ser compreensível antes que imediatamente compreendido.  O texto abaixo poderá iluminar, nessa ocasião  sombria, a interpretação desse poema consagrado à memória do califa abássida Al Mamun, cujo reinado, decisivo para a Casa do Saber de  Bagdá, estendeu-se entre os anos de 813 e 833.

* * * * *

A Universidade de Fez, no atual Marrocos, data do ano de 859, enquanto a Universidade de Bolonha, atual Itália, considerada a mais antiga de toda a Europa, só nasceria em 1088. Portanto, mais de dois séculos antes da Europa, os nossos irmãos muçulmanos já tinham uma Universidade a pleno vapor. E há evidentemente um grande interesse em ludibriar esse fato: a primeira universidade do mundo nasceu na África como um centro cultural islâmico que respeitava a liberdade religiosa, albergando sábios judeus e cristãos em perfeita e profícua cooperação intelectual.

Por volta do ano 1.000 DC, a maior cidade da Europa era Roma, que vivia literalmente na merda e contava com aproximadamente 20.000 habitantes, em sua esmagadora maioria analfabetos, famintos e molambentos. Enquanto isso, a cidade de Bagdá, então a mais rica do mundo,  concentrava uma população superior a um milhão de habitantes vivendo em uma urbe equipada com jardins viçosos, bibliotecas e hospitais públicos. Bagdá recebia eruditos e tradutores das culturas da China, da Índia, do Egito, da Pérsia, da Grécia e de todo o Império Bizantino. Acolhendo com hospitalidade sábios banidos e perseguidos pelas mais diversas razões políticas e religiosas, e remunerando-os com um sistema de bolsas de estudos, a Casa do Saber de Bagdá foi fundada  no século IX pelo califa abássida Al Rashid, tendo o seu apogeu sob o comando de Al Mamun e tornando-se o centro de irradiação de um pensamento estético e científico antropocêntrico e rigoroso em diversas áreas: da astronomia à medicina, da poesia à arquitetura, da química à economia. A Casa do Saber de Bagdá foi o berço histórico disso que no Ocidente ainda se explica como o despertar miraculoso de uma consciência racionalista no âmago mais trevoso do mundo medieval. Todavia, pesquisas cada vez mais meticulosas demonstram que jamais teria ocorrido o tal Renascimento ocidental sem o contato fecundo com a cultura do iluminismo árabe gestado na chamada Era de Ouro do Islã, compreendida entre os séculos VIII e XIII.

Enquanto a Europa vivia terrificada pelo demônio, o mundo muçulmano cuidava de ampliar o léxico do árabe clássico por oficinas de traduções multilíngues e em regime de total tolerância à diversidade de crenças religiosas. Foi assim que a língua árabe tornou-se capaz de traduzir, além de diversas concepções estéticas, as complexas ontologias dos Vedas do sânscrito,  do Tao e de Confúcio do chinês, da Metafísica do grego de Aristóteles (autor que o Ocidente ignoraria até o século XII), do monoteísmo hebraico, do cristianismo bizantino, do zoroastrismo persa e do pensamento Egípcio que só mais de oito séculos depois seria redescoberto pela Europa.  Foi então na verdade o árabe – e não o latim ou o grego – a mais poderosa e fértil língua de cultura do mundo medieval. De mais a mais, o equivalente ao Google daquela época eram as bibliotecas de Bagdá e de Córdoba. Inspiradas na de Alexandria, elas competiam fervorosamente entre si para a constituição de acervos que ultrapassavam os 700.000 volumes em cada uma. No século X, Córdoba dispunha de 70 bibliotecas públicas. No mesmo período, em Bagdá, o califa Al Mamum promulgou um édito determinando a qualquer navio que aportasse na cidade a obrigação de fornecer os pergaminhos que trouxesse a bordo a fim de serem copiados pela biblioteca da Casa do Saber. Guardavam-se os originais e devolviam-se as cópias.  Essa era apenas uma das diversas estratégias informacionais voltadas a multiplicar exemplares e promover ondas dispersivas de obras praticamente sem nenhuma circulação.  Juntamente com as oficinas de tradução, floresceram ateliers de copistas graças ao uso revolucionário do papel em lugar dos pergaminhos de peles de animais, um segredo industrial arrancado aos chineses e proibido em toda a Europa pelos dominicanos por possibilitar a escrita indelével e assim impedir a adulteração dos escritos pelos palimpsestos. Adotando a pena e o tinteiro no lugar do pincel e do estilete sobre as incômodas tabuletas de cera, tais ateliers de calígrafos e copistas inauguraram um comércio de livros sem precedentes na história da Humanidade.

É bom ainda lembrar que, até o século X, a Europa simplesmente não conseguia realizar com desenvoltura uma singela operação de dividir, pois havia ao menos quatro maneiras distintas de se registrar os números romanos. A confusão reinante era tanta que só mesmo com o auxilio de um ábaco se chegava –  e a muito custo –  ao resultado de uma divisão. Imaginem o efeito retardante que isso provocava na atividade comercial (restrita ao escambo sem moeda) ou na engenharia civil (que havia extraviado a fórmula do cimento empregado pelos romanos desde a antiguidade). Considerem ainda que, fora dos mosteiros e das abadias, quase ninguém sabia ler ou operar o tal ábaco. Esse atraso todo só foi revertido graças a uma genuína transferência tecnológica da cultura árabe. O bispo beneditino Gerbert d’Aurillac – que em 999 se tornaria Papa sob o nome de Silvestre II –  teve contato com os eruditos de Córdoba (Andaluzia), chegando a cruzar o estreito de Gibraltar para aprender a nova álgebra com os mestres árabes da Universidade de Fez, no atual Marrocos, trazendo de lá esses ilustres desconhecidos do Ocidente: o conceito de zero e os algarismos indo-arábicos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.  Assim, até para que um energúmeno como Richard Dawkins possa chegar às suas conclusões estapafúrdias e preconceituosas, nós devemos agradecer aos árabes. Ou talvez antes devêssemos já lhes endereçar um constrangido pedido de desculpas, afinal a Universidade mais antiga do mundo nasceu da generosidade intelectual dos muçulmanos e os números que alimentam nossos computadores só nos são conhecidos graças a um bispo católico que soube procurá-los lá na África islâmica. Eis uma outra maneira de se pensar a história da circulação do conhecimento, muito antes do Prêmio Nobel.

medersa

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