ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: setembro, 2013

VICTOR SEGALEN POR BRUNO PALMA

tradução bruno

[STÈLES, Victor Segalen]

ÉDIT FUNÉRAIRE

Moi l’Empereur ordonne ma sépulture : cette
montagne hospitalière, le champ qu’elle
entoure est heureux. Le vent et l’eau dans les
veines de la terre et les plaines du vent sont
propices ici. Ce tombeau agréable sera le mien.

o

Barrez donc la vallée entière d’une arche quintuple  :
tout ce qui passe est ennobli.

Étendez la longue allée honorifique : — des bêtes ;
des monstres ; des hommes.

Levez là-bas le haut fort crénelé. Percez le trou
solide au plein du mont.

Ma demeure est forte. J’y pénètre. M’y voici. Et
refermez la porte, et maçonnez l’espace
devant elle. Murez le chemin aux vivants.

o

Je suis sans désir de retour, sans regrets, sans hâte
et sans haleine. Je n’étouffe pas. Je ne gémis
point. Je règne avec douceur et mon palais
noir est plaisant.

Certes la mort est plaisante et noble et douce. La
mort est fort habitable. J’habite dans la mort
et m’y complais.

o

Cependant, laissez vivre, là, ce petit village paysan.
Je veux humer la fumée qu’ils allument dans le soir.

Et j’écouterai des paroles.

*  *  *   *  *

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Bruno Palma
presenteou-me com essa sua belíssima tradução (inédita) de Victor Segalen (1879-1919) durante as nossas conversas sobre François Cheng (DUPLO CANTO) e Saint-John Perse (MARCAS MARINHAS), poetas que ele verte para o português com um empenho e um rigor ímpares. Basta mencionar que ele dedicou mais de 30 anos apenas para traduzir o monumental AMERS, de Perse , para o nosso idioma em MARCAS MARINHAS. Aqui o leitor poderá ainda procurar algo sobre Victor Segalen, esse poeta fundamental para as trocas culturais entre o mundo ocidental e a China, ainda pouquíssimo conhecido em português. Parabéns a todos os tradutores nesse dia de São Jerônimo, patrono da atividade desses que fazem o distante mais próximo e que hoje cada vez mais se preocupam em não tornar o estranho excessivamente familiar.

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BIOMA : PAISAGEM : POEMA

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transcaatinga

PARECE QUE FOI ONTEM

duchamp

POEMA PARA DUAS VOZES E DIVERSOS SUPORTES

Afresco de Safo com a tabuleta de cera, Pompeia.

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A FALA E A FOLHA

a fala exala, a folha fixa
o som sepulta, o livro ressuscita

a escuta deduz, a leitura explica
a conversa à-toa, a carta suicida

a eloquência alarga, a letra limita
a verborreia evacua, o conto constipa

o arauto proclama, o in-fólio publica
o adágio sugere, o compêndio doutrina

o branco olvida, o pergaminho eterniza
o dialeto meteco, a tradução peregrina

o depoente alega, o escrivão certifica
o tribuno improvisa, o assessor requinta

a voz abafa, o símbolo designa
o belo timbre, a letra na linha

o papo rola, o ponto pinga
o que se perde, o que se pagina

a lenda reza, o papiro decifra
o dito adeja, o volante aterriza

o repente inventa, o cordel sextilha
o rumor inocula, o jornal dissemina

o eco repete, a traça aniquila
a pronúncia elide, a correta grafia

o senhor & o escravo, a casta do escriba
o Minotauro do ouvido, o Teseu da pupila

a testemunha jura, o falsário assina
quem se degola, o que vira cinza

o sermão prega, a bula pontifica
o comentário tece, a crítica desfia

a língua lambe, o texto mandíbula
o lábio sibila, o acento na sílaba

o chinês diz, o ideograma imagina
o primata grunhe, a gruta se pinta

o papagaio imita, a prensa procria
o palato impele, a cunha na argila

o sertão gera, o Rosa ajardina
o verbo tricota, a escrita escumilha

[ou quando a folha e a fala:

a pauta prevê, o cantor modifica
a lauda calcula, o locutor recita

a glosa aclara, o narrador neblina
o pasquim revela, o porta-voz ludibria

a gramática arruma, o povo rebuliça
o que leva aspas, o que se vernaculiza

o cego apalpa, o surdo fita
o braile perfura, a mão pantomima

a tinta mancha, o silêncio faxina
a tábua manda, o pastor homilia

a regra depura, a babel mestiça
o suposto luxo, a dita pacotilha].

* * * * *

tabuleta

A TABULETA DE CERA: A ESCRITA ANTES DO PAPEL

Afinal, será a escrita um registro da oralidade? Sim, mas nunca apenas. A tecnologia da escrita inventa a longa transmissão e a virtualidade da memória, potencializa o recurso ao passado e desencadeia uma nova e extraordinária aventura interpretativa, que influirá sobre as maneiras de se imaginar o próprio futuro a partir das ideias de acúmulo e de experiência. A pedra da caverna, o papiro da planta, o couro do animal: antes da nossa tão alva página de papel, alguns dos suportes largamente empregados pela escrita humana, esse acontecimento cuja datação arqueológica mais recente anda variando entre 7 e 8 mil anos. Caso você nunca tenha se perguntado como se escrevia na Antiguidade e na Idade Média, antes da chegada do papel inventado pelos chineses à Europa, era assim: utilizando-se a tabuleta de cera, essa prancha com uma concavidade de aproximadamente dois milímetros sobre a qual se derramava cera de abelha fundida e na qual se riscava com uma haste pontiaguda, de osso ou metal, que tinha a outra extremidade arredondada ou chata usada para macerar a superfície e assim corrigir eventuais erros. O nome dessa haste era style (estilete), de onde derivam as palavras stylo (caneta) em francês e o nosso estilo, cuja acepção original era nitidamente quirográfica. Para se apagar tudo e se reutilizar a tal tabuleta, a  cera era simplesmente derretida, alisada com uma pedra polida ou raspada, operação esta que originou a expressão latina tabula rasa  (tábua raspada), o clear all desses tablets ancestrais. Depois de anotados – mas nem sempre logo depois –, os  textos  eram  pacientemente transcritos, com esmerada caligrafia, para pergaminhos feitos com peles de cabras ou de carneiros. Quando tal cadeia de transcrição por algum motivo emperrava, era um verdadeiro deus nos acuda nas oficinas de copistas, curtidores  de couro e demais participantes dessa genuína divisão do trabalho envolvida no nada simples uso da palavra escrita.  Sobre a gênese das abstrações dos símbolos alfabéticos na arte dos registros rupestres, tema que me é particularmente caro desde uma perspectiva antropológica, aconselho ainda a leitura do meu poema-ensaio O BISONTE DE ALTAMIRA. Para uma tentativa de oralização de A FALA E A FOLHA, sugiro uma visita à postagem LEITURA SINTÉTICA DE UM POEMA.

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