100 ANOS DE VINICIUS DE MORAES

por Marcus Fabiano

SOB O TRÓPICO DO CÂNCER *

Vinicius de Moraes

Sai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. Vai, foge do mundo
Monstruosa tarântula, hediondo
Caranguejo incolor, fétida anêmona
Carnívora! Sai, Câncer
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo subreptício, glabro homúnculo
Que empestias as brancas madrugadas
Com teu suave mau-cheiro de necrose.
Enquanto largas sob as portas
Teus sebentos volantes genocidas.
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjecto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego
Odioso mascate; fecha o zipe
De tua gorda pasta que amontoa
Caranguejos, baratas, sapos, lesmas
Movendo-se em seu visgo, em meio a amostras
De óleos, graxas, corantes, germicidas.
Sai, Câncer
Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Em saudação fascista; galga, aranha
Contra o teu próprio fio
E vai morrer de tua própria síntese
Na poeira atómica que se acumula na cúpula do mundo.
Adeus
Grumo louco, multiplicador incalculável, tu
De quem nenhum Computador Electrónico poderá jamais seguir a matemática.
Parte, ponete ahuera, andante via
Glauco espectro, gosmento camelô
Da morte anterior à eternidade.
Não és mais forte do que o homem — rua!
Grasso e gomalinado camelô, que prescreves
A dívida humana sem aviso prévio, ignóbil
Meirinho, Câncer, vil tristeza…

Amada, fecha as portas, corta os fios
Não prestes nunca ouvidos ao que o mercador contar.

II

“Senhora
Favor abre a porta
Favor abre a porta só um bocadinho
Juro não precisa comprar, eu mostro sem compromisso
Paga quando puder. Veja, senhora
Quanta coisa, que beleza, tudo grátis
Paga quando quiser. Fibroma
Carcinona, osteossarcoma
Coisa linda! Olhe só, senhora:
Câncer do seio… Tira, volta. Do útero:
Leva artigo de qualidade, sempre reproduz, leva
Artigo garantido, juro por Deus.
Para exmo. seu marido tem coisa beleza: veja
Que maravilha! — tumor sarcomatoso do intestino
Não falha. Espie, senhora:
Câncer do fígado, câncer do rim, câncer da próstata
Câncer da laringe: tudo é câncer!
Artigo garantido, palavra de honra
Restitui dinheiro.
Senhora tem filhos, criancinha beleza? Veja isto:
Câncer da meninge: muita dolência, muita… Câncer
Do sangue: leucemia… Criança
Quase não sofre, vai apagando
Como urna vela, muito carinho
Da senhora e seu marido para o menino:
Morre bem, morre feliz, com todos os sacramentos
Confortado pela excelentíssima família.
E olhe aqui, senhora: isto eu só mostro
Em confiança, artigo conseguido com muita
Dificuldade: CANCER ATÔMICO!
Artigo de luxo, paga à vista, não faz prestação
Muito duro conseguir. Precisa
Muita explosão de Bomba-H, quantidade
De estrôncio-90. Muito difícil.
Artigo superior, não tem na praça, conseguido
Com contrabandista, senhora não conta…
Artigos para casa? Tem cera para lustrar
Inseticida; inalador: tudo
Feito com substância cancerígena. Artigos
De farmácia? Tem bom xarope
Faz bem ao peito, muito alcatrão, mata
Na velhice: câncer do pulmão?
Bom câncer. Senhora não quer?
Fica, senhora: garantido, vendo barato
Paga quando quiser. Olhe aqui:
Deixo sem compromisso – mata moscas
Baratas, ratos, crianças; tem cheiro
De eucalipto, perfuma
Ambiente. Não quer? Adeus
Senhora, passo outro dia, não tem pressa
Senhora pensa, tudo grátis, garantido
O freguês paga quando quiser
Morre quando puder.

III

Cordis sinistra
– Ora pro nobis (rogai por nós)
Tabis dorsalis
– Ora pro nobis.
Maramus phthisis
– Ora pro nobis.
Delirium Tremens
– Ora pro nobis.
Fluxus Gruentum
– Ora pro nobis.
Apoplexia parva
– Ora pro nobis.
Lues Venerea
– Ora pro nobis.
Entesia Tetanus
– Ora pro nobis.
Saltus viti
– Ora pro nobis.
Astralis Sideratus
– Ora pro nobis.
Morbus Attonitus
– Ora pro nobis.
Mania Universalis
– Ora pro nobis.
Cholera Morbus
– Ora pro nobis.
Vomitus Cruentus
– Ora pro nobis.
Empresma carditis
– Ora pro nobis.
Fellis Suffusio
– Ora pro nobis.
Phallorrhoea virulenta
– Ora pro nobis.
Gutta Serena
– Ora pro nobis.
Antina Canina
– Ora pro nobis.
Lepra Leontina
– Ora pro nobis.
Lupus Vorax
– Ora pro nobis.
Tonus Trismus
– Ora pro nobis.
Angina Pectoris
– Ora pro nobis.
Et libera nobis omnia Câncer
Amen.

IV

Há uma célula em mim que quer respirar e não pode
Há duas células em mim que querem respirar e não podem
Há quatro células em mim que querem respirar e não podem
Há dezasseis células em mim que querem respirar e não podem
Há 256 células em mim que querem respirar e não podem
Há 65 536 células em mim que querem respirar e não podem
Há 4 294 976 296 células em mi que querem respirar e não podem
Há … … … células em mim que querem respirar e não podem

V

La rose
Du cancer
Arrose
L’arroseur.

VI
” – Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que seu marido tem um câncer do fígado…”
” – Meu caro senhor, é triste ter de comunicar-lhe, mas sua esposa é portadora de um câncer do útero…”
” – É, infelizmente os exames revelam uma leucemia aguda no menino…”
” – É a dura realidade, meu amigo, sua mãe…”
” – Seu pai é um homem forte, vai aguentar bem a operação.. ”
” – Sua avó está muito velhinha. nas enfim, nós faremos o impossível…”
” – Parece que o General está com câncer…”
” – Que coisa! O Governador parecia tão bem disposto…”
” – Coitado, não linha onde cair morto. E logo câncer…”
” – Era nosso melhor piloto. Mas o câncer de intestino não perdoa… ”
” – Se for câncer, o Presidente não termina o mandato…”
” – Qual o quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Câncer não dá em deputado…”
” – Tão boa actriz… e depois, tão linda…”
” – É um erro seu. Há muito operário que morre de câncer. É porque não se dá publicidade…”
” – Quem diria! O Rei…”
” – Até o Papa!…”
Ultima Hora: Agência TASS:
Estação Interplanetária 777:
” – DEUS ESTÁ COM CÂNCER!”

VII

Para onde olhas, Esfinge:
Para o oxigénio, para o rádio-isótopo, para o ipê roxo
Para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro?
Que vês adiante de ti? Quando o grito
O GRITO que há de arrancar todos os homens do seu mêdo
E criar o maior dos carnavais da humanidade?
Quando os sinos tocando, as sirenas tocando, as buzinas
Tocando, as bandas tocando, as orquestras tocando
E o toque cessando, o dedo, o toque
Comprimindo o ponto, a dor, o espasmo, o diagnóstico:
CÂNCER. Quando, Esfinge
Quando a manchete, a notícia, o pranto, o coro
Simultâneo de vozes, o canto-chão dos homens
De todos os povos do mundo contrapontando seu júbilo
Diante da Descoberta? Quando aberta
A nova porta para o futuro, quando rompido
O muro do câncer? Quando, Esfinge
Quando de teu olhar desfeita a névoa
Do segredo? Cedo
Ou tarde? Ah, que não seja tarde!
Ah, que teu olhar se fixe, Madona, na alga
Na electricidade, no amoníaco
E diga: é aí ! Ah, que não seja tarde
Para os que esperam, para os que desesperam
E para os que desesperarão. Ah, que não seja tarde
Para que ninguém se acovarde ante o momento. o dedo, o toque, o espasmo, a chapa
E a sentença: CÂNCER! CÂNCER! CÂNCER! CÂNCER! CÂNCER!

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* Há aí algumas diferenças entre a versão escrita e a falada, o que para mim deixa até mais belo esse poema que começa solene sobre um tema delicado e no qual o gênio de Vinicius logo instila o seu humor desestabilizante com a figura do mascate árabe cujo sotaque ele chega a emular: “Senhora / Favor abre a porta”. Depois de um poema tão brutal e completo como esse, pode-se  imaginar a mágoa que alcançava esse GIGANTE que de muitas maneiras e por muitos, digamos, concorrentes, foi subclassificado, de um modo só na aparência carinhoso, como “poetinha”.

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