LEITURA SINTÉTICA DE UM POEMA

por Marcus Fabiano

Apresento aqui uma experiência de leitura por sintetizador do meu poema A FALA E A FOLHA, do livro ARAME FALADO. Pesquisei nove softwares de assistência a deficientes visuais e de oralização de textos escritos, com um resultado, na maior parte das vezes, frustrante: falta ou excesso de velocidade, timbres robóticos, ausência de ritmo ou inexistência de interfaces para o português. Obtive o melhor rendimento com o programa BALABOLKA, termo que em russo significa algo como moinho de palavras.  Descartei as vozes originais e adotei o repertório (formato SP5)  da voz de Raquel, a célebre locutora dos GPS e de outros dispositivos falantes em nosso idioma. A pronúncia sintética é baseada na leitura silábica corrigida por princípios de entonação e acentuação. O leitor/ouvinte poderá perceber as travadas e escorregadelas em alguns momentos do poema,  bem como o êxito em outros instantes, dentre os quais destaco a difícil rima com a palavra vernaculiza, na qual a máquina saiu-se, creio, bastante bem. Por me considerar mau leitor de meus próprios textos, escolhi justamente esse que aborda as relações entre os discursos oral e escrito para uma interpretação artificial. De resto, ela não me pareceu muito prejudicada por uma drástica falta de emoção, pois os versos aí presentes vinculam-se a um tipo de sentimento intelectivo bem distante da declamação ou da performance, impondo uma abordagem despojada de afetações que é, ela mesma, um tipo bastante específico de anseio estético. A paleta de recursos métricos, rítmicos e rímicos é também perceptível no gráfico de amplitudes que o Soundcloud gera a partir das unidades estróficas e seus intervalos. Quem desejar, poderá ainda ler outras considerações a respeito desse poema no final da postagem POEMA PARA DUAS VOZES E DIVERSOS SUPORTES.

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A FALA E A FOLHA

a fala exala, a folha fixa
o som sepulta, o livro ressuscita

a escuta deduz, a leitura explica
a conversa à-toa, a carta suicida

a eloquência alarga, a letra limita
a verborreia evacua, o conto constipa

o arauto proclama, o in-fólio publica
o adágio sugere, o compêndio doutrina

o branco olvida, o pergaminho eterniza
o dialeto meteco, a tradução peregrina

o depoente alega, o escrivão certifica
o tribuno improvisa, o assessor requinta

a voz abafa, o símbolo designa
o belo timbre, a letra na linha

o papo rola, o ponto pinga
o que se perde, o que se pagina

a lenda reza, o papiro decifra
o dito adeja, o volante aterriza

o repente inventa, o cordel sextilha
o rumor inocula, o jornal dissemina

o eco repete, a traça aniquila
a pronúncia elide, a correta grafia

o senhor & o escravo, a casta do escriba
o Minotauro do ouvido, o Teseu da pupila

a testemunha jura, o falsário assina
quem se degola, o que vira cinza

o sermão prega, a bula pontifica
o comentário tece, a crítica desfia

a língua lambe, o texto mandíbula
o lábio sibila, o acento na sílaba

o chinês diz, o ideograma imagina
o primata grunhe, a gruta se pinta

o papagaio imita, a prensa procria
o palato impele, a cunha na argila

o sertão gera, o Rosa ajardina
o verbo tricota, a escrita escumilha

[ou quando a folha e a fala:

a pauta prevê, o cantor modifica
a lauda calcula, o locutor recita

a glosa aclara, o narrador neblina
o pasquim revela, o porta-voz ludibria

a gramática arruma, o povo rebuliça
o que leva aspas, o que se vernaculiza

o cego apalpa, o surdo fita
o braile perfura, a mão pantomima

a tinta mancha, o silêncio faxina
a tábua manda, o pastor homilia

a regra depura, a babel mestiça
o suposto luxo, a dita pacotilha].

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