POESIA GAÚCHA: HUMOR E ZOOFILIA

por Marcus Fabiano

O humor é certamente um dos principais indícios da inteligência de um povo ou mesmo de uma só pessoa. O tirocínio necessário para alguém antecipar-se à compreensão de algo logo apresentado de modo inverso, insólito ou propositalmente deslocado requer um manejo com a linguagem que transpõe a frugalidade de seus empregos meramente comunicativos. Por isso uma pessoa engraçada é sempre inteligente, muito embora nem todo o sujeito inteligente consiga ser, só por isso, engraçado. A poesia do gaúcho, assim como a do nordestino e também a do caipira, desde sempre exercitou-se nos engenhos do humor, coisa muito cedo percebida por  Jorge Luis Borges, que no seu poema Los gauchos,  afirma: “A diferencia de otros campesinos, eran capaces de ironía.”. Infelizmente, o tema da identidade transnacional do gaúcho frequenta tão pouco as abordagens sociológicas e literárias de nossas elites acadêmicas que, a título de exemplo, muitos jamais sequer ouviram falar de Atahualpa Yupanqui.

Por certo, uma das coisas mais engraçadas no gaúcho é a sua falta, real ou fictícia, de polidez. Em um espaço cada vez mais cosmopolita, o personagem público do gaúcho mantém e até cultiva um certo deslocamento, uma consciência autocrítica da sua própria incivilidade e um brio, digamos assim,  abagualado, coisa que se traduz no orgulho de uma grossura nascida da mais pura desconfiança das intenções de quem se apresente suspechoso, aparelhado por excessos de salamaleques dissimulantes e protocolos injustificáveis. Quero em breve voltar ao tema da poesia campeira, à tradição trovadoresca do payador – esse verdadeiro aedo dos pampas – e, entre nós, gaúchos brasileiros, ao nome do imenso Jayme Caetano Braun (1924-1999).  Pretendo inclusive fazer um experimento hermenêutico: glosar, com explicações e notas de tradução, o celebérrimo O BOCHINCHO, de Jayme, poema que aborda a universal disputa por uma prenda em um baile.  Apesar de engraçadíssima, tenho percebido que essa obra goza de um entendimento muitíssimo limitado pelas dificuldades dialetais que se acumulam com seu léxico campeiro de origem platina e missioneira.

Infelizmente, não posso tratar em poucas linhas das metáforas, metonímias e fartas analogias oriundas do imenso repertório da animalidade que integra a poesia gauchesca, um autêntico manancial (auto)derrisório  da natureza. Contudo,  para melhor ilustrar essa capacidade do gaúcho de rir de si mesmo, e ainda em um terreno bastante em voga, o da sexualidade, recordo aqui o clássico Barranqueando égua (ou Bombacha branca). O delicado tema da zoofilia surge aí em um poema escrito, entre 1959 e 1960, pela colaboração entre Nico Fagundes, Jayme Caetano Braun, Telmo de Lima Freitas, Apparicio Silva Rillo e Cláudio Oraindi Rodrigues. A história desses versos, que produziram embaraços e constrangimentos aos seus autores por trazer do galpão para o espaço público um tabuísmo tão polêmico (lembremos: em fins da década de 1950!), é magistralmente narrada por Ney Gastal aqui.  Ao leitor menos familiarizado com o vocabulário gaudério, creio que será necessária a consulta a dicionários de regionalismos ou a algum confúcio galponeiro disposto a um mate e uma charla tradutória. Mas, apesar do esforço, asseguro que tudo renderá boas risadas. Abaixo então apresento as estrofes do poema Bombacha branca, seguido de dois vídeos com as respetivas leituras. O segundo vídeo corresponde ao Segundo Ato do poema (a qual considero a melhor parte) e, como frequentemente ocorre em gravações de textos que circularam descolados de suas autorias, alguns versos foram levemente modificados.

Comendo égua e outros bichos…

Peça dramática em 2 Atos.
Personagens: Os “tarados”. Um Moralista.
Cenário: Fundos de potreiros, costas de arroio, socavões de sanga
(conforme predileção do espectador).

1º ATO

Em Cena: “Os tarados” (opinando sobre assunto de alta transcendência crioula)

NICO:
Deixei, faz tempo, a punheta,
que há muito não tinha trégua
e me amiguei com uma égua
bragada, lerda e maceta
com um rasgão na buceta
que media mais de légua. . .

O MAGRO:
Tudo depende de gosto
neste mundão sem fronteira.
Quanta china tafuleira,
seiúda e de boa anca
– segredo que não se explica –
não tem o gosto da crica
de um recavém de potranca!

Quanta vez, quando piazote,
só pra vé o fundo da toca
socava meia mandioca
na racha desta bragada,
e ali no maís, sem delonga,
socava também a chonga
prá não perder a bolada.

CHIMANGO:
Lá no fundo do potreiro,
contra um angico caído,
é assim que tenho fodido
quase até que diariamente,
e às vezes fico temente
que dessa fodologia
me surja lá um belo dia
um potrilho meio gente. . .

O MAGRO:
Tem aìnda um outro jeito,
les digo sincero e franco
– procuro um meio barranco
e encosto a égua de ré.
E empurro a piça – segura! –
mais enristada e mais dura
do que a lança de Sepé!

CHIMANGO:
Até na beira da estrada
eu já fodi, me bombeando,
e quanta vez, acabando,
já sentindo a comichão
num último estremeção
qualquer fungo de cachorro
me viu com cara de sorro
saltar de chonga na mão!

MANDUCA:
Abandonei a bragada
pois todo o pago sabia,
do cambicho o povo ria
e a bragada se gabava. . .

Cola erguida, relinchando,
vinha ao trote, me chamando,
quando “lejos” me avistava. . .

Mas de todas essas éguas
que ergui na ponta da piça,
foi a tordilha petiça
que maior gozo me deu.
Pois a diaba se deitava
e relinchando acabava
no mesmo sonho que eu. . .

O MAGRO:
Faz bem pouco – e bem me lembro
quando tocava prá um chicho,
me veio o diário capricho
de barranquear a potranca.

Mas quando empurrei-lhe o cacho
me largou um churrio macho
na velha bombacha branca. . .

Mas eu não vi o desastre
e assim, no baile chegando,
só vi china se espiando
e um velho, meio arreliado,
que me atacava e dizia!
– Em baile onde tem “famia”
não se aceita homem cagado!

O CHIBEIRO:
(Paciente de um mesmo caso)

Eu fiquei desenxavido
quando me senti cagado.
Fiquei meio encabulado,
tive que me desculpar.

– O senhor não vá pensar
que vim assim prá deboche,
mas tava tão bom o “coche”
que não vi ela cagar…
– Senão eu nem tinha vindo
neste baile familiar.

Mas a égua vai me pagar
o fiasco que cometi.
Lá no Passo do Butuhy,
no primeiro tacurú
vou foder ela no cu
prá nunca mais se exibir…

2º ATO

Em Cena: Os “tarados”, a um canto, sestrosos com a chegada de um novo personagem: o “Moralista” :

O MORALISTA:
Oh, poetas que cantais
velhas cópulas eqüinas,
olvidando outras vaginas,
que numa escala ascendente,
vos deram gozos candentes
no lupanar das campinas!
Eu que venero o passado
não cometo esta injustiça.

Consulto, pois, minha piça
cuja cabeça se anima
e bem melhor que a de cima
inda canta e não enguiça.

Lembro as primeiras punhetas
que findavam em “cosquinha”
calientes cus de galinhas
que eu fodi a valer
e o inigualável prazer,
– pelando a piça travessa –
de destapar a cabeça
prá um guaipeca lamber.

E as cadelas que eu comia
no meu tempo de menino!
Verdadeiro harém canino
que eu mantinha no galpão.

Só uma cachorra bandida
certa vez de uma mordìda,
quase me deixa capão!
Depois passei para ovelha
a quem não dava quartel.

Mas a eterna lua de mel
que com uma porca mantive
é lembrança que ainda vive
do meu campeiro bordel…

(Nesta altura os “tarados” mudam o nome 
do “Moralista”. . . para “Especialista”)

Por fim a revelação
do prazer de comer égua,
quando a orgânica régua
de cabeça colorada
se transfìgurava na espada
de arremetida mui macha
– piça criada em bombacha,
pau do tempo do barato!

(Se o teu passado retrato
minha lembrança se alonga,
pois por ti, velha pichonga,
passou uma fauna tão vasta
que a memória se desgasta
em mental masturbação…)

E para a ejaculação
desta foda no passado,
vos digo, oh poetas tarados,
para concluir a lista,
que já fodi angolista,
pato, marreco e peru,
e pra se sincero e cru
– verdade que não escondo –
só não fodi marimbondo
porque tem ferrão no cu!

Cai o pano

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