O PANAPANÁ E O MITO DOS HOPIS

por Marcus Fabiano

lagarto

Anteriormente ao advento tecnológico das fotografias coloridas, os impressionistas viviam obcecados por insetos e flores de tons vibrantes e exóticos. À época, a melhor maneira de tê-los perto de si era cultivar as próprias flores, como as do célebre jardim da casa de Claude Monet, em Giverny. E na difícil alquimia dos pigmentos, a borboleta sempre foi alvo de um fascínio muito especial. A borboleta é magnífica porque delicadamente conjuga a exuberância cromática das flores à leveza adejante dos pássaros. Contudo, sempre achei a palavra borboleta um tanto imprópria para um inseto tão gracioso e alegre. O seu ê tônico fecha-se em peso e cai da boca como uma pedra. Agora há pouco descobri, em uma instalação do Museu Nacional do Rio de Janeiro, a palavra panapaná, que me pareceu excelente, quase uma onomatopeia. Ela significa revoada ou coletivo de borboletas, sendo formada pelo redobramento de paná (ou panã), que em tupi nomeia justamente essa criaturinha que semelha um par de pétalas aladas.

Após visitar a exposição, falei com uma colega antropóloga nos Estados Unidos. Conversamos  longamente sobre as palavras butterfly e papillon, suas formas, cores e invocações. Contei-lhe da minha descoberta do panapaná e ela, entusiasmada com o tema, apresentou-me  ao mito dos índios Hopis sobre a origem do voo das borboletas. Chamados antigamente de Mokis, os Hopis (Hopitu-shinumu, o Povo Pacífico) falam uma língua do tronco uto-asteca e vivem hoje em uma reserva no nordeste do Arizona, próximos aos Navajos e Apaches. O mito hopi narra a transmissão por certos répteis do poder curativo das cores do arco-íris às borboletas. A história pareceu-me tão bela que rapidamente resolvi traduzir uma versão recolhida por Ivan Etienbre para o site Regard Eloginé. Como se poderá notar, a narrativa ganharia um sentido todo especial se os répteis nele referidos fossem os camaleões. Acontece, porém, que no território norte-americano não existem camaleões, embora haja diversos lagartos coloridos praticamente desconhecidos por aqui.

Com uma singeleza terna e eloquente, esse mito nos sugere o quanto estamos desabituados a nos emocionar com diversos elementos essenciais do nosso mundo circundante: a cor, a cura, o rez do chão. Amparado por representações que não se submetem à ordem causal da ciência, o mito é fonte perpétua da imaginação e guarda fiel dos rastros tênues daqueles acontecimentos que se perderam na noite dos tempos. Ao conservar e mesclar as fantasias do inconsciente a fragmentos de memórias ignorados pela história oficial dos povos, ele nos indaga a respeito  dos homens que muito antes de nós já borboletearam pelos continentes polinizando as suas culturas.

* * * * * 

COMO AS BORBOLETAS APRENDERAM A VOAR
[MITO DOS ÍNDIOS HOPIS]

Hopi-Girl-With-Jar

No começo do mundo, não havia borboletas, só existiam uns répteis que eram os seus ancestrais.  Mesmo dotados de cores maravilhosas, esses animais quase não eram percebidos pelo homem, que olhava muito para o céu e bem pouco para a terra. Nessa época vivia uma jovem chamada Flor de Primavera. O seu sorriso era alegre e as suas mãos tinham o poder de curar febres e queimaduras. Quanto mais o tempo passava, mais esse seu poder aumentava, até que ela se tornou capaz de curar quase todas as doenças existentes. Um dia ela teve a visão de lindas criaturas voadoras que lhe dariam o poder de cura das cores do arco-íris, um poder que ficaria entre os homens mesmo depois da sua morte. Dali em diante passaram a chamá-la Aquela Que Tece os Arco-íris no Ar. Quando chegou o momento, ela encontrou um homem que era vidente, com quem se casou e teve dois filhos. Todos da redondeza seguiam levando até ela pessoas para serem curadas. Mas à medida que as suas energias se esgotavam, Aquela Que Tece os Arco-íris no Ar fora percebendo que a segunda parte de sua visão se tornava mais próxima.

Sempre que sentava no chão, os répteis coloridos vinham roçar-se nela. Certa vez, um deles disse no seu ouvido: “Minha irmã, o meu povo sempre esteve junto de ti enquanto praticavas as tuas curas, dando-te assistência com as cores do arco-íris que nós trazemos pelo corpo. Agora que vais passar para o mundo dos espíritos, não sabemos mais como continuar a trazer aos homens a cura dessas cores. Nós somos ligados à terra e as pessoas olham muito pouco para baixo e assim quase não somos vistos. Se pudéssemos voar, os homens nos perceberiam e sorririam muito mais, e nós aí poderíamos circundar aqueles que necessitam da cura de nossas cores. Podes nos ajudar a voar?” Aquela Que Tece os Arco-íris no Ar prometeu que tentaria fazê-los voar e comunicou a conversa que teve ao seu marido, indagando se algum sonho dele poderia revelar uma solução para a demanda dos répteis.

No dia seguinte, Aquela Que Tece os Arco-íris no Ar amanheceu morta. E enquanto o marido rezava e preparava o enterro de sua esposa, recordou-se do sonho que tivera durante a noite e sentiu-se reconfortado. Quando chegou o momento de enterrar Aquela Que os Tece Arco-íris no Ar, ele deparou-se na cova com o réptil que pensava lá mesmo encontrar. O vidente o apanhou cuidadosamente e o trouxe para perto de si. Ao depositar o corpo de sua esposa onde repousaria, ouviu o réptil lhe dizer:  “Coloque-me sobre o ombro dela. Quando a terra estiver sobre nós, o meu corpo também morrerá, mas o meu espírito irá se misturar ao de tua mulher e juntos nós sairemos voando da terra para irmos até os membros do meu povo e ensiná-los a voar,  assim o trabalho de Aquela Que Tece os Arco-íris no Ar poderá prosseguir. Ela está me aguardado. Coloque-me logo lá!”. O vidente fez então o que o réptil lhe pedia e, após o enterro, ao olhar a cova recordando o amor que tinha vivido, notou que saia da terra uma pequena criatura com todas as cores do arco-íris em suas asas. Ela voou em sua direção, pousou sobre o seu ombro e lhe disse: “Não fique triste, meu esposo. A minha visão agora realizou-se por completo: aqueles a quem ensinarei a voar logo trarão a todos a bondade de coração, a cura e a felicidade. Quando chegar a tua hora de também te transformares em espírito, eu estarei te esperando e te reencontrarei”. Alguns anos mais tarde, quando o vidente mudou de mundo, depois que todos partiram do enterro, os seus filhos ficaram próximos à sua sepultura e lá perceberam uma dessas novas criaturas magníficas, que eles chamaram borboleta, voando ao redor da cova. Pouco depois, um outra borboleta de igual beleza saiu do solo onde jazia o corpo do vidente e uniu-se àquela que a aguardava e juntas voaram em direção ao Norte, o lugar da renovação. Desde essa época, as borboletas estão entre os homens.

.


[publicado originalmente na Revista MUSA RARA]

.

Anúncios