ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: julho, 2014

SOBRE O MANIFESTO DO MOVIMENTO ARMORIAL

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ARIANO SUASSUNA

 Pode-se dizer que a Arte Armorial precedeu o Movimento Armorial, ao contrário daquilo que normalmente acontece nesses casos. De fato, o trabalho criador da maioria dos artistas armoriais começou muito antes do lançamento oficial do Movimento. Por outro lado, este ainda está em plena atuação, de modo que, em algumas áreas artísticas ou literárias – como o cinema, o teatro ou a arquitetura, por exemplo – está apenas esboçado ou planejado, formulado teoricamente, à espera de uma realização efetiva. Todos os participantes do movimento armorial estão de acordo num ponto: em arte, a criação é mais importante do que a teoria. É por isso que, até agora, tratamos mais de criar um mínimo de base teórica, e é essa base teórica que apresentamos aqui agora, reunindo pela primeira vez, de maneira sistemática e organizada – se bem que resumida – definições e posições tomadas em ocasiões diversas.

Tratemos, pois, em primeiro lugar, de apresentar uma definição geral, que abranja o Movimento Armorial inteiro. Ela foi proposta no “jornal da Semana” do Recife, em 20 de maio de 1973, nos seguintes termos:

“A arte armorial brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do Romanceiro popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus “cantares”, e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados.”

O “folheto” da nossa Literatura de Cordel pode, realmente, servir-nos de bandeira, porque reúne três caminhos: um, para a Literatura, o Cinema e o Teatro, através da poesia narrativa de seus versos; outro, para as artes plásticas como a gravura, a Pintura, a escultura, a talha, a cerâmica ou a tapeçaria, através dos entalhes feitos em casca-de-cajá para as xilogravuras que ilustram as capas; e finalmente um terceiro caminho para a música, através das “solfas” e “ponteados” que acompanham ou constituem seus “cantares”, o canto de seus versos e estrofes.

 

O NOME “ARMORIAL”

Existindo, já, a arte armorial, pode-se dizer, porém, que ela só foi reunida de maneira deliberada e consciente depois que se tornou o principal elemento dinamizador dos trabalhos do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco. No dia 18 de outubro de 1970, realizaram-se, na igreja de São Pedro dos Clérigos, do Recife, um concerto e uma exposição de Artes plásticas, para cujo programa escrevi as seguintes palavras:

Em nosso idioma, “armorial” é somente substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo nome. Depois, porque é ligado aos esmaltes da Heráldica, limpo, nítidos, pintado sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercados por folhagens, sóis, luas e estrelas. Foi aí que, meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de Cavalhada era “armorial”, isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também, das pedras armoriais dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à escultura com a qual sonhava para o Nordeste. Descobri que o nome “armorial” servia, ainda, para qualificar os “cantares” do Romanceiro, os toques de viola e rabeca dos Cantadores – toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta, lembrando o clavicórdio e a viola-de-arco da nossa música barroca do século XVIII.

O movimento armorial pretende realizar uma Arte brasileira erudita a partir das raízes populares da nossa cultura. Por isso, algumas pessoas estranham, às vezes, que tenhamos adotado o nome “armorial” para denominá-lo. Acontece que, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, no Brasil a Heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer outra coisa. Assim, o nome que adotamos significava, muito bem, que nós desejávamos ligar-nos a essas heráldicas raízes da cultura popular brasileira. E tanto assim era, que, convencendo as pessoas que (?) de criar, dizíamos naquele mesmo programa de 1970:

“A unidade nacional brasileira vem do povo, e a heráldica popular brasileira está presente, nele, desde os ferros de marcar bois e os autos dos Guerreiros do Sertão, até as bandeiras das Cavalhadas e as cores azuis e vermelhas dos pastoris da Zona da Mata. Desde os estandartes de Maracatus e Cabocolinhos, até as Escolas de Samba, as camisas e as bandeiras dos clubes de futebol do Recife ou do Rio.”

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A PÁTRIA DE CHUTEIRAS

O Nelson Rodrigues conseguiu uma autorização do NOSSO LAR para sair do umbral e escrever uma última crônica sobre a Copa. Claro que nesse processo psicográfico quase tudo do seu estilo se perdeu pela ação dos obsessores: as frases curtas ficaram longas e algumas expressões genuinamente suas desapareceram. Mais do que uma pálida emulação de estilo, uma homenagem e o registro de uma saudade.

NR

O FANTASMA DO MINEIRÃO 

Nelson Rodrigues
pelo espírito de André Luiz

Quando escolheram o Mineirão para a nossa semifinal contra a Alemanha, o Otto Lara Resende saiu-se com um vaticínio: “no Brasil, só Minas conserva o autêntico sentido da tragédia.” Pensei em Tiradentes e no Tancredo e fui imediatamente varado por um terror metafísico: uma Copa que começou com um gol contra do Brasil poderia a qualquer momento degringolar em uma tragédia. E não deu outra.

Na abertura lá estava o povo perfilado dublando o seu hino. Parecia um país eslavo, monolítico e uníssono no seu brio. Só se via peles brancas ou, no máximo, algum grã-fino tostado de sol e pílulas de caroteno. Em campo, nunca se vira uma seleção de craques de pelada como aquela. Nenhum deles joga no Brasil, exceto o Fred que, jogando aqui, nunca joga nada – é um defunto vocacional. Urge então absolver esses meninos dizendo que eles foram vítimas da ascensão meteórica do pobre diabo, experimentaram aquele frisson da vertiginosa transmigração de classes que só o futebol e a sorte grande na loteria propiciam. Do dia para a noite, passaram do pão com ovo à lagosta e do bonde apinhado para o Mercedes Benz com chauffeur. Porém, continuaram cultivando os vícios mais cruentos da preguiça e da indisciplina que são, a um só tempo, o ouro e o flagelo dos nossos craques. Perderam a ginga da malandragem e não puseram nada em seu lugar. Só deixaram lá o vácuo hediondo e obsceno de uma total falta de identidade futebolística. Nem vou falar sobre como o álcool demoliu o nosso Garrincha. Prefiro falar do Ronaldinho Gaúcho, que logo após ganhar os seus primeiros milhões foi tomado pelo furor da fama e tornou-se insaciável como um fauno de tapete. Entregou-se a intermináveis pagodes e bacanais com anões e jamais conseguiu chegar na hora exata em um mísero treino. Resultado: foi cortado da seleção e deportado do Velho Mundo para os Tristes Trópicos, teve de destrocar o Louvre pelas lêndeas e chegou a sentir novamente o cheiro do pão com ovo sob as suas narinas.

Mas o vexame dessa derrota também pode ser creditado à grande vocação pacifista do Brasil. O nosso jogador nunca foi um guerreiro propriamente dito. Aqui o nosso Luiz Felipe Scolari parece menos um general e muito mais um campeão de bocha de alguma colônia italiana nos confins do Rio Grande do Sul. O escrete da “família Felipão” tornou-se assim uma espécie de FEBEM sob controle. Quando estão bem comportados, os jogadores ganham um biscoito de polvilho doce e mais um prato de mingau. Por isso a Blitzkrieg da Divisão Panzer alemã não encontrou reação alguma nesses nossos meninos obedientes. Já a Alemanha é um país escaldado em derrotas: perdeu duas Guerras Mundiais e, quando pôde, obrigou a França a assinar sua capitulação no mesmo vagão de trem em que ela própria havia engolido à força o Tratado de Versalhes. Depois, Hitler mandou desfilar o vagão em carro aberto por toda Berlim e tacou fogo nele feliz e risonho como um Nero tedesco. Para Hitler, o futebol era uma questão de Estado. Em 1942, o Dínamo de Kiev venceu o time alemão durante a ocupação nazista da Ucrânia. Os soviéticos haviam sido bem avisados: caso ganhassem, morreriam. Foram deixados sem dormir e com fome, por via das dúvidas. Mesmo com um juiz da SS e com um goleiro que teve a cabeça chutada por um jogador nazista, os soviéticos acabaram vencendo a partida no estádio local. Todos os onze jogadores, vestindo os seus uniformes, foram fuzilados lá mesmo, atrás de um barranco. Ainda bem que a Alemanha logo aprendeu a perder e nunca teve maiores razões para odiar o Brasil. Vestidos de Flamengo, venceram sem tripúdio, antevendo que seriam mundialmente responsabilizados por surtos coletivos imprevisíveis caso festejassem demais os sete gols do seu massacre. Saíram vitoriosos e de fininho, distribuindo apertos de mão e sorrisos protocolares. Antes do jogo lembrei até da melancolia de Itamar Franco promovendo a ressurreição do fusca e pensei: os alemães vão nos tratar muito bem, eles gostam do nosso jeito bonachão assim como nós gostamos do Volkswagen deles, e, afinal de contas, a relação entre as duas potências vai de vento em popa – nós com a nossa soja, eles com a sua engenharia.

O futebol é nossa tragédia e nossa literatura, temos nele o nosso Sófocles e o nosso Dostoievski. Mas os estádios brasileiros foram colonizados pelos idiotas da objetividade. Vivemos agora dominados por uma legião de Pachecos e Luvizaros. Quando viu o Thiago Silva chorando prostrado como uma viúva de filme mexicano, o Hélio Pellegrino cantou a pedra: “o fator emocional decidirá inexoravelmente a próxima partida.”. Batata! Os meninos entraram em campo carregando nas chuteiras a reeleição do PT, a vaidade de Aécio Neves e todo o circo de marketing do Lula com suas opiniões de torcedor do Bonsucesso. A verdade é que o nosso futebol foi parasitado pela política, aniquilado por um excesso de ambições espúrias. Passou de espetáculo popular a grande negócio, enquanto os marxistas da PUC desfilavam por Ipanema falando (em inglês) da nova classe média para os mesmos estrangeiros que são levados para algum safari na favela. Aliás, foram esses marxistas que deixaram a Presidente Dilma mais só do que um Robinson Crusoé sem radinho de pilha justo na abertura da Copa. Vaiada e acossada por horrendos apupos, a nossa Governanta fugia das câmeras do telão como um vietcong que se esquiva de uma bazuca americana. Passou a semifinal mais incógnita do que na época em que bancava o Che Guevara de saias e há quem já diga que ela será substituída por uma manequim na entrega do troféu à seleção campeã.

Sem líder nem time, depois dos sete gols, a pátria de chuteiras ficou atônita como uma carpideira sem defunto. Mas ainda nem despertamos desse pesadelo e tem uma última coisa que eu queria dizer. Tivemos a tal Copa das Copas no Brasil, deixamos a taça escorregar por entre os dedos úmidos de lágrimas e a seleção brasileira não disputou uma única partida no estádio Mário Filho. O Maracanã continuará então assombrado pela maldição de 1950, só que agora terá um companheiro à sua altura: o fantasma do Mineirão.

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