A PÁTRIA DE CHUTEIRAS

por Marcus Fabiano

O Nelson Rodrigues conseguiu uma autorização do NOSSO LAR para sair do umbral e escrever uma última crônica sobre a Copa. Claro que nesse processo psicográfico quase tudo do seu estilo se perdeu pela ação dos obsessores: as frases curtas ficaram longas e algumas expressões genuinamente suas desapareceram. Mais do que uma pálida emulação de estilo, uma homenagem e o registro de uma saudade.

NR

O FANTASMA DO MINEIRÃO 

Nelson Rodrigues
pelo espírito de André Luiz

Quando escolheram o Mineirão para a nossa semifinal contra a Alemanha, o Otto Lara Resende saiu-se com um vaticínio: “no Brasil, só Minas conserva o autêntico sentido da tragédia.” Pensei em Tiradentes e no Tancredo e fui imediatamente varado por um terror metafísico: uma Copa que começou com um gol contra do Brasil poderia a qualquer momento degringolar em uma tragédia. E não deu outra.

Na abertura lá estava o povo perfilado dublando o seu hino. Parecia um país eslavo, monolítico e uníssono no seu brio. Só se via peles brancas ou, no máximo, algum grã-fino tostado de sol e pílulas de caroteno. Em campo, nunca se vira uma seleção de craques de pelada como aquela. Nenhum deles joga no Brasil, exceto o Fred que, jogando aqui, nunca joga nada – é um defunto vocacional. Urge então absolver esses meninos dizendo que eles foram vítimas da ascensão meteórica do pobre diabo, experimentaram aquele frisson da vertiginosa transmigração de classes que só o futebol e a sorte grande na loteria propiciam. Do dia para a noite, passaram do pão com ovo à lagosta e do bonde apinhado para o Mercedes Benz com chauffeur. Porém, continuaram cultivando os vícios mais cruentos da preguiça e da indisciplina que são, a um só tempo, o ouro e o flagelo dos nossos craques. Perderam a ginga da malandragem e não puseram nada em seu lugar. Só deixaram lá o vácuo hediondo e obsceno de uma total falta de identidade futebolística. Nem vou falar sobre como o álcool demoliu o nosso Garrincha. Prefiro falar do Ronaldinho Gaúcho, que logo após ganhar os seus primeiros milhões foi tomado pelo furor da fama e tornou-se insaciável como um fauno de tapete. Entregou-se a intermináveis pagodes e bacanais com anões e jamais conseguiu chegar na hora exata em um mísero treino. Resultado: foi cortado da seleção e deportado do Velho Mundo para os Tristes Trópicos, teve de destrocar o Louvre pelas lêndeas e chegou a sentir novamente o cheiro do pão com ovo sob as suas narinas.

Mas o vexame dessa derrota também pode ser creditado à grande vocação pacifista do Brasil. O nosso jogador nunca foi um guerreiro propriamente dito. Aqui o nosso Luiz Felipe Scolari parece menos um general e muito mais um campeão de bocha de alguma colônia italiana nos confins do Rio Grande do Sul. O escrete da “família Felipão” tornou-se assim uma espécie de FEBEM sob controle. Quando estão bem comportados, os jogadores ganham um biscoito de polvilho doce e mais um prato de mingau. Por isso a Blitzkrieg da Divisão Panzer alemã não encontrou reação alguma nesses nossos meninos obedientes. Já a Alemanha é um país escaldado em derrotas: perdeu duas Guerras Mundiais e, quando pôde, obrigou a França a assinar sua capitulação no mesmo vagão de trem em que ela própria havia engolido à força o Tratado de Versalhes. Depois, Hitler mandou desfilar o vagão em carro aberto por toda Berlim e tacou fogo nele feliz e risonho como um Nero tedesco. Para Hitler, o futebol era uma questão de Estado. Em 1942, o Dínamo de Kiev venceu o time alemão durante a ocupação nazista da Ucrânia. Os soviéticos haviam sido bem avisados: caso ganhassem, morreriam. Foram deixados sem dormir e com fome, por via das dúvidas. Mesmo com um juiz da SS e com um goleiro que teve a cabeça chutada por um jogador nazista, os soviéticos acabaram vencendo a partida no estádio local. Todos os onze jogadores, vestindo os seus uniformes, foram fuzilados lá mesmo, atrás de um barranco. Ainda bem que a Alemanha logo aprendeu a perder e nunca teve maiores razões para odiar o Brasil. Vestidos de Flamengo, venceram sem tripúdio, antevendo que seriam mundialmente responsabilizados por surtos coletivos imprevisíveis caso festejassem demais os sete gols do seu massacre. Saíram vitoriosos e de fininho, distribuindo apertos de mão e sorrisos protocolares. Antes do jogo lembrei até da melancolia de Itamar Franco promovendo a ressurreição do fusca e pensei: os alemães vão nos tratar muito bem, eles gostam do nosso jeito bonachão assim como nós gostamos do Volkswagen deles, e, afinal de contas, a relação entre as duas potências vai de vento em popa – nós com a nossa soja, eles com a sua engenharia.

O futebol é nossa tragédia e nossa literatura, temos nele o nosso Sófocles e o nosso Dostoievski. Mas os estádios brasileiros foram colonizados pelos idiotas da objetividade. Vivemos agora dominados por uma legião de Pachecos e Luvizaros. Quando viu o Thiago Silva chorando prostrado como uma viúva de filme mexicano, o Hélio Pellegrino cantou a pedra: “o fator emocional decidirá inexoravelmente a próxima partida.”. Batata! Os meninos entraram em campo carregando nas chuteiras a reeleição do PT, a vaidade de Aécio Neves e todo o circo de marketing do Lula com suas opiniões de torcedor do Bonsucesso. A verdade é que o nosso futebol foi parasitado pela política, aniquilado por um excesso de ambições espúrias. Passou de espetáculo popular a grande negócio, enquanto os marxistas da PUC desfilavam por Ipanema falando (em inglês) da nova classe média para os mesmos estrangeiros que são levados para algum safari na favela. Aliás, foram esses marxistas que deixaram a Presidente Dilma mais só do que um Robinson Crusoé sem radinho de pilha justo na abertura da Copa. Vaiada e acossada por horrendos apupos, a nossa Governanta fugia das câmeras do telão como um vietcong que se esquiva de uma bazuca americana. Passou a semifinal mais incógnita do que na época em que bancava o Che Guevara de saias e há quem já diga que ela será substituída por uma manequim na entrega do troféu à seleção campeã.

Sem líder nem time, depois dos sete gols, a pátria de chuteiras ficou atônita como uma carpideira sem defunto. Mas ainda nem despertamos desse pesadelo e tem uma última coisa que eu queria dizer. Tivemos a tal Copa das Copas no Brasil, deixamos a taça escorregar por entre os dedos úmidos de lágrimas e a seleção brasileira não disputou uma única partida no estádio Mário Filho. O Maracanã continuará então assombrado pela maldição de 1950, só que agora terá um companheiro à sua altura: o fantasma do Mineirão.

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