SOBRE O MANIFESTO DO MOVIMENTO ARMORIAL

por Marcus Fabiano

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ARIANO SUASSUNA

 Pode-se dizer que a Arte Armorial precedeu o Movimento Armorial, ao contrário daquilo que normalmente acontece nesses casos. De fato, o trabalho criador da maioria dos artistas armoriais começou muito antes do lançamento oficial do Movimento. Por outro lado, este ainda está em plena atuação, de modo que, em algumas áreas artísticas ou literárias – como o cinema, o teatro ou a arquitetura, por exemplo – está apenas esboçado ou planejado, formulado teoricamente, à espera de uma realização efetiva. Todos os participantes do movimento armorial estão de acordo num ponto: em arte, a criação é mais importante do que a teoria. É por isso que, até agora, tratamos mais de criar um mínimo de base teórica, e é essa base teórica que apresentamos aqui agora, reunindo pela primeira vez, de maneira sistemática e organizada – se bem que resumida – definições e posições tomadas em ocasiões diversas.

Tratemos, pois, em primeiro lugar, de apresentar uma definição geral, que abranja o Movimento Armorial inteiro. Ela foi proposta no “jornal da Semana” do Recife, em 20 de maio de 1973, nos seguintes termos:

“A arte armorial brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do Romanceiro popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus “cantares”, e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados.”

O “folheto” da nossa Literatura de Cordel pode, realmente, servir-nos de bandeira, porque reúne três caminhos: um, para a Literatura, o Cinema e o Teatro, através da poesia narrativa de seus versos; outro, para as artes plásticas como a gravura, a Pintura, a escultura, a talha, a cerâmica ou a tapeçaria, através dos entalhes feitos em casca-de-cajá para as xilogravuras que ilustram as capas; e finalmente um terceiro caminho para a música, através das “solfas” e “ponteados” que acompanham ou constituem seus “cantares”, o canto de seus versos e estrofes.

 

O NOME “ARMORIAL”

Existindo, já, a arte armorial, pode-se dizer, porém, que ela só foi reunida de maneira deliberada e consciente depois que se tornou o principal elemento dinamizador dos trabalhos do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco. No dia 18 de outubro de 1970, realizaram-se, na igreja de São Pedro dos Clérigos, do Recife, um concerto e uma exposição de Artes plásticas, para cujo programa escrevi as seguintes palavras:

Em nosso idioma, “armorial” é somente substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo nome. Depois, porque é ligado aos esmaltes da Heráldica, limpo, nítidos, pintado sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercados por folhagens, sóis, luas e estrelas. Foi aí que, meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de Cavalhada era “armorial”, isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também, das pedras armoriais dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à escultura com a qual sonhava para o Nordeste. Descobri que o nome “armorial” servia, ainda, para qualificar os “cantares” do Romanceiro, os toques de viola e rabeca dos Cantadores – toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta, lembrando o clavicórdio e a viola-de-arco da nossa música barroca do século XVIII.

O movimento armorial pretende realizar uma Arte brasileira erudita a partir das raízes populares da nossa cultura. Por isso, algumas pessoas estranham, às vezes, que tenhamos adotado o nome “armorial” para denominá-lo. Acontece que, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, no Brasil a Heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer outra coisa. Assim, o nome que adotamos significava, muito bem, que nós desejávamos ligar-nos a essas heráldicas raízes da cultura popular brasileira. E tanto assim era, que, convencendo as pessoas que (?) de criar, dizíamos naquele mesmo programa de 1970:

“A unidade nacional brasileira vem do povo, e a heráldica popular brasileira está presente, nele, desde os ferros de marcar bois e os autos dos Guerreiros do Sertão, até as bandeiras das Cavalhadas e as cores azuis e vermelhas dos pastoris da Zona da Mata. Desde os estandartes de Maracatus e Cabocolinhos, até as Escolas de Samba, as camisas e as bandeiras dos clubes de futebol do Recife ou do Rio.”

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