RITMO: TEMPO E MOVIMENTO

por Marcus Fabiano

Acredita-se que a palavra ritmo (em grego: ῥυθμός) seja uma abstração substantivada do verbo reo (ῥέω): correr, fluir. Tal explicação etimológica assentou-se no suposto fato de que esse correr seria derivado da observação das marés. Acontece, entretanto, como bem notou Émile Benveniste em seu Problèmes de linguistique générale, que o mar não corre para lugar algum, à diferença do rio heraclítico e mesmo do panta rhei (tudo flui) propugnado pelo tal filósofo de Éfeso talvez injustamente cognominado o obscuro.

O ritmo é um fenômeno temporal abstrato e a percepção humana em regra socorre-se do espaço para facilitar a enunciação a respeito dessa sua natureza etérea e fugidia. A noção mais intuitiva de ritmo provém da ideia mesma de interrupção modulante de um fluxo: a do do silêncio alterado por um tipo de ocorrência já precocemente notada enquanto recorrência de um movimento. Por sua vez, essa constatação de movimento, visível, táctil ou audível, torna o ritmo mais concreto: é pelo deslocamento que se constata a existência de alguma repetição em eventos sucessivos cuja alternância não é totalmente arbitrária ou irregular.

Na tradição ocidental, Platão foi o primeiro a perceber o ritmo como fluxo peculiar de uma sucessão de intervalos entre os quais se constata uma certa frequência. Em um diálogo chamado Filebo, que versa sobre o prazer, Sócrates diz a Protarco: “Mas, meu caro amigo, quando estudares os intervalos dos sons, o número e a  natureza dos agudos e dos graves, os limites dos intervalos e todas as combinações possíveis, descobertas por nossos pais, que no-las transmitiram, como a seus descendentes, sob a  denominação de harmonias, bem como as operações congêneres que vamos encontrar nos movimentos dos corpos e que, interpretadas pelos números, como diziam, receberam o nome de ritmo e medida, e considerares que o mesmo princípio terá de ser aplicado a tudo que é uno e múltiplo: quando houveres aprendido tudo isso, então, e só então, chegarás a ser sábio […]” (cito aqui a tradução de John Burnet vertida por Fernando Muniz).

Da escuta cardíaca aos work songs do eito, o ritmo organiza a ciclicidade do tempo humano de um modo pré-cronométrico. Ele instaura a duração como a experiência vivida de um transcurso ordenável. A regularidade dos intervalos e a natureza forte ou fraca, alta ou baixa dos sons marcados conduziu à ideia de uma métrica poética, arte que pretende dispor sobre o tamanho e a tonicidade das sequências enunciativas conforme modelos mais ou menos determinados pela experiência da fala que se registrou por escrito.  Portanto, a métrica não é, como muitos crêem, uma simples ortodoxia das formas fixas. Ao contrário: ela é uma educação da respiração, sobretudo para aqueles povos que, como os gregos, não conheceram os sinais de pontuação. Contudo, a despeito das maravilhas alcançadas por tais sistemas, novos e surpreendentes ritmos sempre podem nascer da recusa e da violação dos metros clássicos. A pesquisa com esquemas acústicos multimétricos é hoje capaz de alcançar fôlegos e modulações inéditos e mesmo de ousar a apropriação inovadora daqueles há muito já experimentados. Entretanto, o advento moderno do verso livre e branco (sem métrica e sem rima) proporcionou uma certa vulgarização da forma poética, que passou a ser frequentemente exercida como um miniconto desmembrado em frases cujos finais gráficos são aleatoriamente interrompidos sem uma maior consciência de seus efeitos rítmicos. Essa devoração do ritmo poético pelo fluxo prosódico processou-se também em razão de uma enganosa facilidade que a concentração textual da poesia aparenta oferecer: a forma breve seduz por parecer singela, rápida e acessível. Todavia, a verdade é que a alta consciência do ritmo poético trará sempre consigo a vitalidade de um reenvio temporal na sua definição mesma de linha escrita, ainda hoje chamada verso, palavra que se origina do latim versare: voltar, retornar. Esse tornar é o giro que somente ocorre na circularidade, isto é, na curva que reconduz o outro ao mesmo, até que na longa iteração desse movimento perceba-se a força (re)vigorante do de novo, algo capaz de alimentar a noção de espera como expectativa de um vir a ser ao qual não somos mais indiferentes e para o qual já ousamos direcionar a percepção intencional de um dever ser. Logo, não constituiria nenhum exagero afirmar que a paulatina consciência do ritmo colaborou intensamente para a construção de nossa própria ideia de futuro, essa conquista virtualizante de uma linguagem que se sofisticou ao alargar os seus âmbitos prospectivos e deontológicos.

Abaixo, um vídeo espetacular sobre a experiência do ritmo e quatro metapoemas de minha autoria que, direta ou indiretamente, também a abordam.

RITMO E INTERMITÊNCIA

tamborila com os dedos, percute uma caixeta
ou uma tora que seja, nica com as unhas na mesa
marca o badalo do sino da igreja, sapateia

decifra o pica-pau em sua telegrafia, o malho no aço que tilinta
o cavalo ferrado em meio à tropilha, o pilão pisando a sua farinha
a datilógrafa que ninguém mais admira, o pingo na pia que te irrita

ou acompanha no peito o metrônomo mais portátil:
a ameaça dessa bomba-relógio entre sístole e diástole

e ao compassar o tempo
percebe a arquitetura invisível dos intervalos
os espaços vazios entre os caminhos e os atalhos
os seus andamentos: o presto, o allegro, o adagio

aproxima-te e fita este halo
apura as rajadas solenes do rufado
e espia por esta frincha, esta fenda
este meio, este lapso

então, o que vês aí?
o que existe no inter do intervalo?
qual vazio de entes congrega este lado?
será propriamente o tal éter do vácuo?
erramos com Parmênides ao buscar nomeá-lo?
ou já será essa ausência que permite o haver algo?

isso que de tanto assomo
nos intervalos se instaura enquanto se disfarça
é mesmo o nada:
tudo que a língua cala e o tempo não guarda.

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* * * * *

O VERSO (ANDAR)

contra o fluir da frase
o verso é a volta
à outra ponta onde
a ideia se forma

não (só) da história
que se conta
como da estrofe
que se canta

o verso é contra
e contudo anda.

  

A RIMA (FICAR)

o erudito sema
ou sua roça: semente

flor que o verbo vivo
enterrado esplende

espargido em sopro
o grão aflora no retorno

e outra vez germina
determinando um ciclo

a rima inventa o ritmo:
eco e cio dos interstícios.

* * * * *

DOIS PONTOS:

de todos os sinais gráficos
só os dois pontos têm o recato
da exclamação substantiva:
um contentar-se em dizer algo
não como quem exorta ou elogia
mas como quem recolhido se abisma
de uma coisa poder ser dita ou definida

com ares de quem sintetiza premissas
os dois pontos adiantam aos ouvidos
que algo de importante será dito
e embora acionem válvulas ao fôlego fingido
(aquele viciado em vírgulas)
são de um tempo em que o discurso
tinha na voz alta a sua melhor medida
como para os antigos gregos
que usavam um palmo pulmonar
no comércio de Hermes
dizendo os preços em seu bazar.

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