ESSE HONRADO SAPATEIRO

por Marcus Fabiano

Hoje, dia de São Sebastião, é um ótimo momento para tratar do sebastianismo, um tipo muito específico de crença, surgida mais de 1ooo anos após a morte do tal santo. O Sebastião canonizado foi um militar romano do século IV. Sabe-se muito pouco a seu respeito. Parece que teria sobrevivido a uma execução por flechas e acabou morrendo espancado, a mando do Imperador Diocleciano, em Roma. Ele fora acusado, como guarda, de ser excessivamente indulgente com os seus camaradas cristãos. O culto a esse mártir, que parecia ter morrido e depois retorna, alcançaria grande prestígio na iconografia do Renascimento, influenciando o nome de batismo de um Rei português da dinastia de Avis: Dom Sebastião, o Desejado (1555-1578). Porém,  antes de falar desse outro Sebastião, é preciso mencionar um ilustre morador da cidade de Trancoso que lhe é anterior: o poeta e sapateiro Gonçalo Annes, mais conhecido como o Bandarra (1500-1556). Nunca ficou provado que Bandarra, muito apreciado pelos cristãos-novos, tivesse de fato sangue judeu, tal como lhe acusava o Santo Ofício. Mesmo assim, por via das dúvidas, ele foi condenado a acompanhar  umas procissões e a jamais voltar a interpretar a Bíblia. Em cópias manuscritas, suas Trovas alcançaram uma imensa penetração popular, sobretudo por seu caráter místico, no que se aproximavam das quadras de seu  homólogo e contemporâneo, o francês Nostradamus. O sobrenatural para além do canônico fazia parte do espírito transgressivo da época, animada por lendas arturianas e pela circulação subterrânea de práticas alquímicas e ocultistas de grande interesse oracular. Após a morte de Bandarra, seus poemas passaram a ser recebidos como verdadeiras profecias sobre o regresso do Rei Dom Sebastião, desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, em 1578. As Trovas foram então reunidas e publicadas pela primeira vez em 1603, por Dom João de Castro, com nítido propósito de animar a restauração do trono português pela volta de Dom Sebastião. Essa edição de 1603 foi chamada Paráfrase e concordância de algumas profecias de Bandarra, çapateiro de Trancoso, surgida em lugar incerto.

Livro de bandarra

Com o desaparecimento de Dom Sebastião na desastrosa minicruzada com a qual pretendia reviver o sucesso das Navegações e dos Descobrimentos, Portugal mergulhou em uma complexa crise dinástica. O trono sem sucessor acabou por cair sob o domínio da Espanha de Felipe II – e assim permaneceria ao longo dos 60 anos da união panibérica. Foi nesse contexto que o jesuíta Antonio Vieira inspirou-se diretamente em Bandarra para pregar a sua doutrina mileranista do Quinto Império, que propugnava a restauração da independência lusitana e a misteriosa volta do Rei encoberto – palavra que poderia tanto referir-se a um monarca oculto que esperava a ocasião propícia para recuperar seu trono, quanto já impropriamente a uma ressureição. De qualquer modo, pela via do messianismo católico o ideal de um destino glorioso retornava ao combalido orgulho lusitano. Quando o Duque de Bragança (depois Dom João IV) logra enfim recobrar a independência de Portugal, isso em 1640, o sebastianismo já havia assumido os ares de um nacionalismo tão potente que chegaria a influenciar séculos depois a Fernando Pessoa em seu poema Mensagem (1934), escrito e publicado para um concurso de exaltação patriótica no qual receberia um constrangedor segundo lugar (perdeu para A Romaria, de um obscuro Padre Vasco Reis). Voltando à épica de Camões, em Mensagem Pessoa promoveu uma interpretação astrológica das Trovas de Bandarra e das palavras de Vieira. Ele pretendia com isso reabilitar a autoestima nacional, abalada pela humilhação inglesa nas colônias da África (o episódio do ultimatum britânico) e pelo descrédito geral que se seguiu à Proclamação da República (na Europa, a monarquia portuguesa foi a única que caira antes da Primeira Guerra Mundial, em 1910). Nas primeiras décadas da vida republicana portuguesa, logo passou a haver quem enxergasse em António de Oliveira Salazar uma espécie de novo Dom Sebastião. Pessoa, entretanto, recusava com veemência essa identificação, atribuindo ao seu sebastianismo um tom claramente anti-salazarista e dedicando-se inclusive a escrever diversos poemas satíricos contra o ditador, entre eles Coitadinho do Tiraninho.

Mas quero voltar a Vieira. Com a sua defesa política da restauração portuguesa de Dom João IV, o Padre Vieira novamente atraiu sobre si a ira da Inquisição, sempre invejosa de seu talento retórico e desconfiada de seu possível sangue judeu. Foi o mito desse sebastianismo de Vieira que, inspirado em Bandarra, atravessou o Atlântico com os portugueses para insuflar, na longínqua Bahia de Todos os Santos, o beato monarquista Antônio Conselheiro, fundador  do arraial de Canudos e protagonista do sangrento episódio relatado por Euclides da Cunha n’Os Sertões. Do mártir cristão do século IV, passando-se pelo reis encobertos do século XVI, chega-se a um moderno ditador tecnocrata e a um líder carismático na América do Sul, ambos do século XX. O sebastianismo prova assim ser um credo de redenção capaz de atingir uma autêntica estatura mitológica em seu poder de retorno multissecular e reconfiguração política. O vídeo abaixo pertence ao filme Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira. Nele o Padre Vieira sai em defesa de Bandarra diante do Tribunal do Santo Ofício, tendo de responder a perguntas como essa: sabe ler e escrever? logo ele, a quem Pessoa chamava de o Imperador da Língua Portuguesa. Por óbvio, o sentimento sebastianista é infinitamente mais complexo que esse apressado e canhestro resumo que ora apresento. Ele envolve uma novela de impostores (o principal deles, o Dom Sebastião de Veneza) e a interpretação de uma série de sinais bíblicos digna de uma moderna obra de suspense. Mas é sempre bom recordar que tal sentimento começou com as trovas de Bandarra, esse honrado sapateiro.

*  *  *

Determinei de escrever
A minha çapataria
Por ver vossa senhoria
O que sae de meu coser

Que me quero entremeter
Nesta obra que offereço:
Por que saiba o que conheço
E quantas mais posso fazer

Gonçalo Bandarra

 

O ÇAPATEIRO

37 e ½, a mais procurada. jacta-se das suas fôrmas de medida exata. assim como de notar os detalhes mais minúsculos. alcança das ferramentas o melhor uso. é paciente no polimento, leve no pulso. sabe quando o hálito e o lustro esplendem seus frutos, embora não goste de ser tratado como engraxate. lembra que seu ofício remonta a longa linhagem e cita um vago judeu, grão mestre de sua arte. é firme no martelo e exato na goiva, preciso com estilete e tesoura. por seu capricho chamam-no o bigorna de ouro. a sua agulha só usa linhas embebidas em cera. jamais sintética, sempre de abelha. delega à esposa os forros de cetim e de seda. há bem pouco aderiu à cola tóxica. queixa-se de sua textura viscosa e seu odor de galochas. por isso ainda guarda, em especial para as botas, uns cravinhos de madeira mergulhados em álcool. confia no seu inchaço para acoplar um solado. vende couros em partida e em retalhos. do mais barato ao muitíssimo caro. socorre mulheres trocando fivelas e saltos. com a crise passou a aceitar pequenos reparos: malas e zíperes enguiçados. remenda o roto e renova o gasto. comprou uma máquina de ilhós mas detesta cadarços. acha o tênis um fiasco vulcanizado, a nova chanca dos jovens bárbaros. reprova a gáspea alta e a lingueta acolchoada, sobretudo as de origem asiática. defende o bico fino contra o quadrado e suspira a elegância da madeira nos tacos. proclama que sua meia-sola é a ressurreição de um calçado. anota umas trovas quando o serviço é mais ralo.

* * * 

Publicado originalmente na Revista Desassossego, PPGLP-FFCH USP.

Estátua_do_profeta_Bandarra_-_Trancoso_(Portugal)

.

Anúncios