ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: março, 2015

ADEUS A HERBERTO HELDER

HH

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O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento
Ou a ferida enche a lembrança
Herberto Helder

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ANDRÔMEDA

as mãos rasgam um nevoeiro de sal 
destramando o ramalhete de fios por trás 
da moringa acesa dos olhos

todo o estrangeiro carrega essa bolha ígnea
pelos buracos de seu pensamento perdido:
a ardência repentina do pássaro de chamas 
ateando no ninho a germinação dos cancros
e a aracnia das nódoas que rendilham
um rajado de estrias sob a pele intacta

é do avesso que partem os piores reveses
e o reboco é só mais esta estrondosa página acesa 
consumindo-se nas cinzas da pura decifração

na outra metade da distância
o braço das manhãs ergue um canto de telha 
para o sol filtrar-se em réstias de luz 
escumando a ladainha cósmica que resseca
a garganta azul dos dias intermináveis

todo esse prodígio nos foi há bem pouco 
(quando ainda o alvor do bilhar cósmico 
não troava em suas cremalheiras celestes)

tudo era só um fôlego antes do pó
e dele nunca faltou quem dissesse: 
também as espumas se transfundem 
pela linfa que nos faxina o sangue sujo

e havia nisso uma outra meia-verdade:
um crânio sem rosto, gasto de tanto ser visto 
sobre o mobiliário ancestral de uma gruta 
salivando por sua dentição de estalactites

ao redor daquela embocadura de lábios rachados 
uma Andrômeda derramava sua paz sem pálpebras 
e presas mordiam a nervura gasosa do espaço 
comendo o ar, desesperadamente.

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A DIÁFANA FUMAÇA

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A vida é líquida
Hilda Hilst

PITONISA

o que atrai
a ti – mulher
nesse ofício
tão masculino
(a filosofia)
desde a barba
dos séculos
dos machos
de seu garbo
e fidalguia?

tanto sabe
a Hiroximas
esse homem
de penso & existo
que há muito
ele ajardina
uma roseira
só de espinhos

agora acreditas
que a verdade
por mãos finas
enfim despida
abrir-se-á toda
em suas pétalas
íntima e feminina?

ou crês ainda
que de Simone
de Hannah
ou de Cristina
ela desbotará
da crosta rude
de sua áspera
misoginia?

o feminino
sendo terra
pode a vida
que cultiva
pois conhece
da carícia à cria
o tal mistério
que não se ensina

que o ventre
mesmo vazio
sabe da vida
o quanto é líquida
e que embora
a carne seja
no seu cerne
óssea e quebradiça
o saber
maior de todos
é coisa de pitonisa:
a diáfana fumaça
da ventura vitalícia.

 

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