ADEUS A HERBERTO HELDER

por Marcus Fabiano

HH

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O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento
Ou a ferida enche a lembrança
Herberto Helder

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ANDRÔMEDA

as mãos rasgam um nevoeiro de sal 
destramando o ramalhete de fios por trás 
da moringa acesa dos olhos

todo o estrangeiro carrega essa bolha ígnea
pelos buracos de seu pensamento perdido:
a ardência repentina do pássaro de chamas 
ateando no ninho a germinação dos cancros
e a aracnia das nódoas que rendilham
um rajado de estrias sob a pele intacta

é do avesso que partem os piores reveses
e o reboco é só mais esta estrondosa página acesa 
consumindo-se nas cinzas da pura decifração

na outra metade da distância
o braço das manhãs ergue um canto de telha 
para o sol filtrar-se em réstias de luz 
escumando a ladainha cósmica que resseca
a garganta azul dos dias intermináveis

todo esse prodígio nos foi há bem pouco 
(quando ainda o alvor do bilhar cósmico 
não troava em suas cremalheiras celestes)

tudo era só um fôlego antes do pó
e dele nunca faltou quem dissesse: 
também as espumas se transfundem 
pela linfa que nos faxina o sangue sujo

e havia nisso uma outra meia-verdade:
um crânio sem rosto, gasto de tanto ser visto 
sobre o mobiliário ancestral de uma gruta 
salivando por sua dentição de estalactites

ao redor daquela embocadura de lábios rachados 
uma Andrômeda derramava sua paz sem pálpebras 
e presas mordiam a nervura gasosa do espaço 
comendo o ar, desesperadamente.

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