ANTROPOLOGIA POÉTICA DO FERRO

por Marcus Fabiano

kpinga

KPINGA: A IDADE DO FERRO

por aqui os negros da terra não conheciam o ferro. só mais acima, uns seus primos é que fundiam outros metais, muito mais amarelos. diversas culturas só de bronze os seus gumes tiveram. do ferro e do aço, jamais a glória e o flagelo –  a exemplo das centúrias romanas ou dos hoplitas em Ítaca, que reinaram sob o cobre dessa liga –  boa mas nunca tão rígida como o ferro dos hititas, capaz de repelir as letais bigas egípcias.

a forja refaz do ferro a lava em sua gana de fogo para logo desfazê-la, quando sólida de novo, ainda mais forte que o marfim e o osso. ferro: substância e forma do sabre vitorioso. dele e de outras ferramentas nascidas do forno: o facão que decepa, a pua que espeta, a enxada que revolve a terra e o machado que ao derrubar a relva produz a madeira que o prego penetra. ferro: mais que ouro na guerra.

kpinga: na África, um privilégio do clã Avongara, a arma de arremesso dos Azande, arranjo entre adaga, foice e lança. um falcão capaz de atingir cinco homens. e até de contornar seus escudos. espécie de bumerangue muito mais cruel e astuto. cavalos e homens sofreram o terror desse voo recurvo, aprendido quiçá com os núbios. jalis e bruxos disseram não ser desse mundo. um pacto de reis baniu das batalhas o seu uso. Ogum e Xangô selaram esse acordo, mantendo-a distante de seu povo.


* * * * *

O FERRO E OS HOMENS DE ÉBANO

A metalurgia originária da África negra dominou a técnica da forja e dos fornos siderúrgicos muito antes dos admiráveis aços das cimitarras andaluzas, das katanas japonesas e dos sabres alemães. Não obstante isso, em 1885, julgando os negros autóctones como primitivos, a Conferência de Berlim partilhou o território africano entre os potentados coloniais europeus, ignorando por completo as fronteiras naturais, linguísticas e comerciais entre os povos daquele continente. Era o prolongamento do genocídio escravista e da diáspora transatlântica, cujas consequências devastadoras sobre o desenvolvimento da África subsaariana ainda hoje se fazem sentir.

Pesquisas com abalizado fundo empírico hoje indicam que África negra, muito precocemente, já no III milênio a.C., desenvolvera o complexo domínio do ferro, uma crucial conquista tecnológica desconhecida por egípcios, gregos e romanos durante um longo período da Antiguidade. Desde os anos 1980, questionava-se a primazia do surgimento do ferro na África do Norte, na região da atual Tunísia. Com a decisiva ajuda da UNESCO, novas e mais exatas datações arqueológicas de fornos e fragmentos permitiram a comprovação derradeira da hipótese da origem autônoma da siderurgia do ferro na África negra do centro-oeste, em diversos pontos do povo Bantu, próximos aos lagos na região da Nigéria. Para os interessados no aprofundamento dessa discussão, eis aqui uma obra de referência para os embates arqueológicos e antropológicos:


Em uma África de enormes fornos cônicos, o ferro viria a ligar-se intimamente à fertilidade da terra, pois logo tornou-se essencial à produção dos implementos agrícolas (em especial a enxada) com reflexo imediato na própria divisão sexual do trabalho, tornando as mulheres cultivadoras muito mais dependentes dos homens que detinham a exclusividade das ocupações metalúrgicas. Além de ser frequentemente usados como dotes, os utensílios de ferro, em especial o martelo e a bigorna, tornaram-se também presentes nas cerimônias de entronização de diversos chefes e soberanos como insígnias de poder. O próprio artefato bélico tratado pelo poema acima – kpinga – não consistia apenas em uma crudelíssima arma branca de arremesso: ele é também um importante símbolo de nobreza dos guerreiros Azande, um povo metalurgista localizado entre o Congo, a República Centroafricana e o Sudão do Sul, estudado, entre outros, pelo antropólogo Evans-Pritchard.

art_banda4

Nas Cartas Jesuíticas organizadas por Capistrano de Abreu em 1887, Manuel da Nóbrega menciona o irmão Matheus Nogueira, um “ferreiro de profissão”, morto em 1561. A metalurgia de Matheus em nosso período colonial dedicava-se sobretudo a produzir coisas miúdas: anzóis, facas e pontas de lança, objetos com os quais os religiosos cortejavam os indígenas a fim de batizá-los e dissuadi-los do consumo da carne humana. E cá no Brasil contemporâneo todos certamente já ouvimos ao menos alguma referência aos chamados ferros de Ogum, o orixá que na cultura iorubana exerce o patronato da metalurgia. E no que concerne à experiência negra com o ferro, tem-se dado pouquíssima atenção ao testemunho de Wilhelm Ludwig von Eschwege, o Barão de Eschwege, mineralogista germânico trazido ao Brasil por Dom João VI em 1810. Em um depoimento de Eschwege encontrei o registro dos homens que pela primeira vez teriam fundido o ferro em terras mineiras, lamentavelmente só reconhecíveis pelos nomes de seus respectivos senhores. Trabalhando no sítio que décadas depois seria a Itabira de Drummond e da Companhia Vale do Rio Doce, o Barão de Eschwege escreve: “Na província de Minas, a fabricação do ferro tornou-se conhecida no começo deste século [XIX], através de escravos africanos. O ferro foi fabricado pela primeira vez em Antônio Pereira, por um escravo do capitão-mor Antônio Alves, e também em Inficionado, por um escravo do capitão Durães (o mesmo senhor que achara cobre nativo arenoso). Ambos disputavam a honra da prioridade.” O livro de Eschwege a respeito das vicissitudes da metalurgia e da mineração brasileiras foi publicado na Alemanha, em 1833, sob o título Pluto Brasiliensis, contando com essa tradução em português, que sairia na coleção Brasiliana apenas em 1944.

516845_844

Volto à África, agora a magrebina, mais especificamente à medina de Rabat, no Marrrocos, a pouco mais de 300 quilômetros de Marraquexe, onde gravei o vídeo abaixo em 2009. Uma característica fundamental das medinas muçulmanas é a rigorosa proibição de que no seu interior seja utilizada qualquer espécie de máquina em processos produtivos. Nelas só é autorizado o trabalho manual que preserve técnicas e linhagens de ofícios ameaçados pela mecanização industrial e a indiferença ao artesanato ensejada com a inundação de bugigangas chinesas. Para alguém como eu, interessado em fenomenologia desde uma perspectiva antropológica, ir ao Marrocos foi como transpor uma porta dimensional.  Depois de algumas fotografias e entrevistas com os curtidores de couro e os contadores de história da Praça Jeamma el-Fna, em Marraquexe, rumei para Rabat. Lá, na parte da cidade antiga,  encontrei um homem de nome Aniq, um ferreiro tradicional que estava manufaturando a encomenda de uma série de martelos de carpinteiro. Sobre a sua bigorna, com a ajuda de tenazes, lâminas e punções, uma marreta (malho) moldava a cabeça da ferramenta em preparo: ajustava as suas facetas, alargava o orifício que receberia o cabo e abria a fenda da unha usada em alavanca como extrator de pregos.

O trabalho da forja é lento, árduo e perigoso. Uma combinação delicada entre robustez, destreza e paciência. Absorto nesse verdadeiro espetáculo artesanal de um martelo que fazia outro, pensei na ferramenta primordial. Na linhagem dos utensílios que se engendraram, em um dado instante primevo, o metal fundido teve de ser moldado por pedras, madeiras e talvez até por ossos. Contudo, uma vez inaugurada essa nova genealogia, as ferramentas procriam até que das mãos que as empunham surjam as máquinas que já nos fazem esquecer o caráter plenamente utensiliar dos instrumentos que franquearam ao homem essa via irreversível de domínio crescente do mundo natural, inclusive rumo à sua destruição e ao seu exaurimento, legado que alcança já o registro geológico nas formações das rochas plastiglomeradas do Antropoceno.

Cada vez mais me convenço que a ferramenta primitiva não foi inventada nem propriamente descoberta: ela simplesmente aconteceu como uma confluência benfazeja entre a mão, a mente e as circunstâncias. Durante muito tempo, a tradição cartesiana, reiterada inclusive por Marx, nos fez acreditar que a mão é o simples executor daquilo que o cérebro pensa e planeja: a mente comanda, o membro cumpre. Em O Capital, Marx nitidamente subscreve essa primazia da ideação mental sobre a inteligência do corpo: “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador.” (cap. VII, Seção I). Claro que Marx tem razão em grande parte de  no que afirma, afinal aranhas e abelhas não possuem cérebro. Entretanto, um conceito fundamental que venho pesquisando na fenomenologia de Heidegger, caro tanto a minha poesia e reflexões teóricas, permite revisar essa perspectiva: Zuhandenheit, a manualidade ferramental e utensiliar dos entes intra-mundanos. Inclino-me assim a compreender que não apenas a mão faz aquilo que o cérebro pensa: primariamente, o cérebro só pôde pensar aquilo que a mão conseguia fazer. Ou seja: a estrutura da manualidade humana, com todos os traços anatômicos e evolutivos de sua proporção e de sua disposição preênsil, encontra-se na própria origem do pensamento e da linguagem humanos, rearticulando o corpo, a mente e a linguagem em uma totalidade existencial capaz de superar o antigo dualismo psicofísico herdado de Platão, com todas as suas armadilhas cognitivas e amplíssimas consequências metaforizantes.

Essa  preocupação filosófico-antropológica, à qual retorno sistematicamente, já compareceu, misturada a outras, a diversas publicações de meu projeto poético-ensaístico, dentre as quais destaco duas mais recentes: uma que aborda a faca, no poema Ofícios da Carne e outra sobre O Çapateiro.  Contudo, uma vez que esses links trazem digressões que podem rapidamente se tornar aborrecidas aos que não se interessam por tantas minúcias, recomendo que se vá direto aos poemas. De outro lado, é bastante compreensível que, de um ângulo como o da Literatura, o qual definitivamente não é o meu, só se possa enxergar em tais obras a vaga manifestação de algum sentimento anti-lírico ou de uma mera poesia de coisas.

Retorno novamente ao Marrocos. Enquanto fotografava o labirinto da medina de Rabat, retornei por três vezes à oficina de Aniq, tentando convencê-lo a vender-me um daqueles martelos maravilhosos. Depois de muita conversa e de uma negociação cheia de blefes e caretas, típica do comércio muçulmano, consegui arrancar dele, por 20 euros, um exemplar da série. Anos depois eu arranjaria para aquele martelo um lindo cabo de angelim-pedra e mandaria até confeccionar uma caixa de vidro com uma lâmpada dicróica acoplada. Pretendia  deixá-lo na sala de casa, em um ambiente expositivo que o retirasse dos olhares capazes de só ver nas suas irregularidades uma triste ferramenta imperfeita e supostamente antiga. Isso é o que pretendia, porque antes de receber a tal caixa do vidraceiro que iria confeccioná-la, parti em viagem e emprestei meu apartamento a um querido amigo. Ao voltar para casa, encontrei sobre a mesa uma ótima garrafa de vinho e um bilhete de agradecimento pela hospedagem escrito mais ou menos assim: “Tudo ótimo, mas no sábado deixei os faróis ligados e a bateria do carro arriou. Peguei o teu martelinho pra soltar os contatos do cabo e acabei esquecendo na rua, daí comprei um Tramontina novinho na ferragem da esquina.”. No começo, imaginei que aquilo fosse uma brincadeira. Pensei: vai ver que, quando ausente, o vidraceiro apareceu para entregar o tal expositor e acabou falando algo sobre o martelo. Quando descobri que era tudo verdade, fiquei, por óbvio, muitíssimo furioso. Perdi a minha relíquia, da qual conservava até um vídeo do seu nascimento, e ganhei em troca esse presente de grego:

martelo-de-unha-18-mmtramontina-208910100

É difícil descrever sucintamente o orgulho que Aniq envergava por seu ofício de ferreiro. Recordo de seu discurso altivo e às vezes virulento a respeito das diferenças entre o ferro trabalhado pela mão humana e aquele outro, derramado nos moldes pelas fundições. Em meio àquela mistura precária de árabe, francês e gestos, eu só conseguia recordar do poema O ferrageiro de Carmona,  de João Cabral de Melo Neto, a respeito de balcões e açucenas. E acho agora absolutamente extraordinário conceber que tudo isso possa ter a sua origem na África negra.

 

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
“Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe uma grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.

. . . .

Anúncios