ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: junho, 2015

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HOMOSSEXUALIDADE E ANACRONIA

 

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No século XIX, o caráter transgressivo da homossexualidade coroava o dandismo de grandes artistas e literatos, invocando os ares de mistério e superioridade espiritual de seletos círculos privados sobre a rusticidade intolerante da moral religiosa dos espaços públicos burgueses e aristocráticos. Foi nesse contexto que se desenrolou o drama de um Oscar Wilde, na Inglaterra, e de um Rimbaud ou de um Verlaine, na França – estes dois, os autores do famoso Sonnet du Trou du Cul  (Soneto do Olho do Cu). Como se sabe, por sua homossexualidade, Wilde foi condenado à prisão com trabalhos forçados em 1895, sendo também proibido de legar o seu sobrenome aos filhos. Desgraça semelhante já se havia abatido sobre o poeta Paul Verlaine, que vivera um romance atribuladíssimo com o jovem Arthur Rimbaud. Em razão desse affaire, Verlaine fora condenado por sodomia, na Bélgica, em 1871, permanecendo encarcerado até 1875.

Mário de Andrade, nascido em 1893, embora um visionário do século XX, é, em muitos sentidos, ainda um homem do século XIX no qual se passaram os dramas acima narrados. E, penso eu, não convém agora cometer-se a anacronia de se imaginar que o sigilo ao redor da sexualidade dele fosse apenas uma mixaria irrelevante da sua vida privada. Se hoje, sobretudo depois da AIDS, a liberalidade dos costumes normaliza-se à custa de escândalos e brados pela criminalização da homofobia, a coisa toda era completamente distinta no contexto de um modernismo com os olhos voltados para as afoitezas do cosmopolitismo de Paris e os pés bem fincados em uma cultura ibérica de fatura católica e patriarcal.

Sem sombra de dúvidas, a interpretação da homossexualidade de Mário por ele próprio ocorria à luz dos dândis europeus que lhe forneciam inspiração e critérios capazes de ultrapassar em muito as meras preferências sexuais, instalando-se no âmbito geral de um gosto sofisticado que ele sempre procurou manifestar e até encarnar com sua habitual e cultivadíssima elegância. Mário era um esteta completo, uma obra viva na ética de um artista total. Entretanto, em sua época, como disse o meu amigo Eder Fernandes, simplesmente ainda não havia como questão posta uma “identidade gay” a ser publicamente assumida. E Oswald de Andrade, sacaneando Mário, teria certa vez dito que ele “parecia com Oscar Wilde por detrás“. Esse era o nível da coisa.

Mário, morto em 1945, sempre preferiu a discrição, pois sabia que na realidade enfrentava o convívio com um grupo modernista altamente conservador em matéria de costumes. Tão conservador que assim continuaria inclusive na sua geração posterior de herdeiros diretos. A identidade pública do homossexual oscilava então entre a moléstia e a atmosfera soturna dos criminosos. Sem me alongar muito a esse respeito, darei apenas um exemplo bem simples do que estou procurando dizer. Eis uma declaração de Carlos Drummond de Andrade à pesquisadora Maria Lúcia do Pazo, concedida praticamente quatro décadas após a morte de Mário de Andrade, em 1984:

Devo dizer que o homossexualismo sempre me causou certa repugnância, que se traduz pelo mal-estar. Nunca me senti à vontade diante de um homossexual. Com o tempo, havendo agora uma abertura imensa com relação ao desvio da homossexualidade, o homossexual não só ficou sendo uma pessoa com autorização para ir e vir como tal, mas chega a ponto de isto ser exaltado como riqueza de experiência, como acrescentamento da experiência masculina.

À luz da mesma admoestação contra o anacronismo, penso que tampouco seria admissível reprovar Drummond por manter a opinião que na oportunidade exarou, deveras consentânea com seu pertencimento geracional e a percepção moral hegemônica de seu tempo. Contudo, já na era dos mercados identitários, quando até empresas (!) alavancam campanhas sobre as chamadas questões de gênero, é interessante lembrar, em perspectiva, que a homossexualidade já representou, no seu passado recente, um alto exercício da liberdade privada capaz de afrontar o conservadorismo reinante nos costumes ao mesmo tempo em que reclamava altas distinções intelectuais.

O tema da revelação da carta de Mário para Bandeira é complexo, pois envolve os limites de subsistência da vontade de duas pessoas ausentes a respeito de cenários que não puderam vislumbrar. E isso sempre foi, para o Direito e para a História, um tema delicadíssimo. Se Manuel Bandeira tivesse destruído a carta que lhe foi confiada sob a exigência do perpétuo sigilo, essa discussão simplesmente não estaria ocorrendo. Mas como na história conjectural a hipotetização dos cenários sempre cede à ventura irreversível dos fatos consumados, eis-nos aqui, celebrando, e até com certo alívio, a comprovação biográfica de um elemento que certamente não pode ser desconsiderado na assim chamada erotologia de Mário de Andrade.

Como arquiteto e engenheiro cultural, Mário foi um gênio da nossa alma, um demiurgo incontornável dessa esfinge que nos consome: a questão nacional da brasilidade. Pessoalmente, acho sua poesia medíocre e cansativa, e tampouco gosto de Macunaíma. Jamais aceitei a exigência de ser moderno, que hoje mais significa alinhar-se a um certo modernismo institucionalizado por seus epígonos como uma cultura oficialesca capaz de se sobrepor a tantos outros autores e tradições que ainda merecem ser mais fundamente estudados. Não consigo admitir que o novo seja, por si só, melhor que o antigo. Prefiro então celebrar em Mário e no seu modernismo – ou melhor dizendo: nos seus modernismos – a irreverência e a iconoclastia sublimadas pela sutil ambiguidade. E justamente em nome desta ambiguidade, recordo aquele que talvez seja o único poema de Drummond sobre o amor homossexual, publicado no ano de 1951, em Claro Enigma:

 

RAPTO

Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é forma pura e que é suspiro
de terrenas delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o vôo mais cortante;
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.

Carlos Drummond de Andrade

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Publicado no jornal Zero Hora em 20 de junho de 2015.

MÁRIO DE ANDRADE

* * * 

MAIAKOVSKI ABERTO A MACHADO

 

cerebro

psicografado pelo espírito de
Helena Petrovna Blavatskaya

  

O CÉREBRO DE MAIAKOVSI

 abrir um crânio a machado
para roubar o seu cérebro?
camaradas, eu confesso:
naquela hora derradeira
nem me passou pela cabeça
o futuro de meu encéfalo

mas se enfim eu soubesse
que mesmo depois de morto
algum capacho de Stálin
já iria fatiar-me ou expor-me
eu teria com toda a certeza
optado pelo velho calibre 12
(bem ali, direto na cabeça)

afinal o cérebro de um poeta
não é matéria para compota:
no grande vidro de formol
dura mais em verso a aposta
de que 1 quilo e 700 gramas
de pura proteína em brasa
tendo em seus dias brilhado
viverá em ponto de bala.

* * *

Maiavoski suicidou-se em Moscou no dia 14 de abril de 1930 com um tiro no coração. Poucos momentos depois, no quarto do apartamento dos Brik onde ele jazia, apareceu um médico, acompanhado de soldados, que, sem cerimônia nem autorização, abriu por trás o crânio do poeta e levou o seu encéfalo em uma bacia. Destino: o Instituto do Cérebro de Moscou. O novelista Yuri Olesha, que com outros amigos de Maiavoski encontrava-se na sala do apartamento em que se deu a tragédia, relatou que o som que de lá escutaram parecia madeira ou uma parede sendo derrubada a machado. Nas palavras do próprio Olesha em No Day without a Line: “When the evening after his death we had gathered on Gendrikov Lane in … the Briks’ apartment [where Mayakovsky had been living], we suddenly heard loud noises coming from Mayakovsky’s room–very loud noises, unceremoniously loud, as if somebody were chopping wood. It was the opening of Mayakovsky’s cranium to allow the removal of his brain. We listened in horror-struck silence. Then a man in a white gown and boots came out of the room–either an attendant or a medical assistant, but a stranger to us–and in his hands he held a basin covered with a white cloth raised in the middle almost like a pyramid, indeed, just as if that soldier in boots had been carrying a paschal cream-cheese pudding. In the basin was Mayakovsky’s brain.” (tradução de Judson Rosengrant).
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