O VIEIRA DE MANOEL DE OLIVEIRA

por Marcus Fabiano

PALAVRA E UTOPIA,
FILME DE MANOEL DE OLIVEIRA

  Alcir Pécora

Há armadilhas formidáveis no caminho de um filme dedicado ao jesuíta Antônio Vieira, como é o caso de Palavra e Utopia, do conhecido cineasta português Manoel de Oliveira, com assessoria de um dos mais conhecidos estudiosos portugueses dos sermonários seiscentistas, o Padre João Francisco Marques, da Universidade do Porto. Tocarei brevemente em cada uma delas, sabendo de antemão que, felizmente, um filme é um filme e não uma tese de doutorado em história.

Da primeira dessas armadilhas, que é seduzir-se pelo pitoresco multi-étnico da paisagem baiana e produzir dela alguma imagem de paraíso pós-colonial, o filme de Manoel de Oliveira safa-se completamente. Nenhuma imagem deliciosa da província de então ou de agora, nenhum cartão postal de amável pobreza terceiro-mundista para turistas dispostos a experiências exóticas trepidantes. O filme é de uma sobriedade e economia radicais em matéria de locação: apenas são claramente reconhecíveis a pouca conhecida Quinta do Tanque, na periferia de Salvador, onde morou Vieira em seu último período de vida, e alguns púlpitos de Igrejas seiscentistas em que o jesuíta teria pregado. Não muito mais do que isso compõe o cenário baiano do filme.

Da segunda armadilha, que é retomar o lugar comum do Vieira “contraditório”, o mais resistente lugar comum da fortuna crítica do jesuíta, um anacronismo longamente compartilhado por positivistas, românticos e marxistas, católicos ou não, que postula incoerência quando Vieira fala ao mesmo tempo e com as mesmas finalidades do Deus católico apostólico romano, do milenarista Quinto Império do mundo e da política de fortalecimento da Monarquia portuguesa, o filme também escapa, ainda que com algum arranhão. Conquanto 3 atores distintos façam o papel de Vieira em diferentes fases de sua vida (o que, poderia reforçar a má e velha concepção de “vários” Vieiras, em sucessão cronológica e esquizofrênicos entre si), está claro que, de maneira predominante, Manoel de Oliveira produz uma personagem que sustenta uma unidade consistente de ação e propósito. A escolha dos 3 atores para representar um mesmo Vieira acaba tendo alguma funcionalidade para o expectador, ajudando-o a entender a ordem dos acontecimentos – descontada, entretanto, a atuação canhestra do mais jovem deles, Ricardo Trepa, logo esquecida, felizmente, pela atuação muito superior dos dois outros experientes atores: o português Luís Miguel Cintra, hierático e sentencioso, que atua no período europeu de Vieira, e o brasileiro Lima Duarte, viril e informal, que encerra a sua vida no Brasil. É curioso também observar que esses dois atores procuram pronunciar suas falas com um acento que mescla português e brasileiro, verossímil no caso de Vieira, que, segundo consta em documentação de época, revelava um sotaque que levava a identificá-lo erroneamente como natural do Brasil.

Da terceira armadilha, que é a de apresentar um Vieira “vencido” ao fim da vida, derrotado pela grandeza de seus próprios projetos face à lógica estrita da elite, imagem recorrente em suas biografias modernas, o filme não consegue passar incólume. O apelo do “patetismo”, que Jorge Luís Borges julgava decisivo para fixar a imagem dos autores no gosto coletivo, está bem evidente nas passagens do filme relativas ao último Vieira. Por sorte, porém, esse tom é matizado pela interpretação de Lima Duarte que, lançando mão de mais inflexões de voz e de maior vibração gestual do que fazem os dois outros Vieiras mais jovens, acaba por dar um tom paradoxalmente vigoroso justamente ao suposto “vencido”. A respeito de Lima Duarte, aliás, apenas faria reparo àquele seu tique com a voz fininha, que fez sua glória na televisão brasileira no papel do jagunço Zeca Diabo. Retomando o ponto em questão, diria que o apelo patético também se mitiga e ganha interesse mais amplo pela escolha de trechos dos sermões relativos ao tema da velhice, o que confere a esta parte do filme não diria um tom existencialista, mas certamente relativo a uma reflexão estóica que parece interessar particularmente a Manoel de Oliveira, hoje com noventa e tantos anos.

Da quarta e última armadilha, a de fazer um filme encomiástico ou apologético da grandeza heróica do jesuíta, tampouco foge Manoel de Oliveira. Aí, o pior momento acontece na cena em que o jesuíta, no momento de sua ordenação, jura intensamente em pensamento defender negros e índios, enquanto em voz alta, num disfarce público, promete obediência à Igreja e ao Rei. Isto tudo como se ele separasse a ação eclesial ou institucional da ação missionária ou apostólica! Ora, em termos verossímeis, está bem claro que, para Vieira, fora da Igreja não havia salvação. A alegada “defesa do índio” apenas tinha sentido, para ele, como defesa de uma política jesuítica para o índio. Neste momento difícil de seu filme, Manoel de Oliveira bebe sua porção de teologia popular e o padre seiscentista ameaça tornar-se um misto de católico moderno, santo antigo e revolucionário romântico.

Seria o fim, caso essa formulação, que certamente está presente na sua concepção, predominasse de modo ostensivo no filme. Mas isso não ocorre, felizmente. Manoel de Oliveira, afinal, não compõe um filme centrado em ações, sejam elas heróicas ou não: ele o entrega inteiramente a passagens irresistíveis dos sermões de Vieira, um pregador com poucos rivais nos púlpitos de seu tempo. A rigor, o filme não tem mesmo ação alguma: todo ele significa um esforço de dar a ver palavras, cuja energética quer materializar em som e visão. O melhor do filme revela-se exatamente aí e, então, apresenta-se não propriamente como um filme sobre Vieira, mas como um filme em que se declara o amor pela palavra, ou em que se postula radicalmente como um cinema de imagens subordinadas à palavra. Apenas nesse momento poderemos compreender porque o filme tem o título de “palavra e utopia”: não por referir apenas o Vieira supostamente visionário, mas por reafirmar a fé num cinema cuja imagem mais vibrante é a da literatura.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PÉCORA, Alcir. Manoel de Oliveira, dir. Palavra e Utopia. In: Luso-Brazilian Review, vol. 40, n. 1, summer 2003. Special Issue: António Vieira and the Luso-Brasilian Baroque. Guest Editors: Thomas Cohen and Stuart B. Schwarts. Madison: University of Wisconsin-Madison, 2003.

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