VIEIRA: A PLUMA E A VOZ

A
Arte_de_Furtar,_atribuída_ao_Padre_António_Vieira,_1744

 

O estilo pode ser muito claro e muito alto;
tão claro que o entendam os que não sabem
e tão alto que tenham muito que entender os que sabem.
Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima

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GRANDE SERMÃO: VIEIRA

morre a carne para viver no verbo. e há os que se ocupem em fazê-lo eterno, convertendo galhardos gentios de alvoroços e ócios ao sereno murmúrio das jaculatórias. ou amansando índios pela sageza de panegíricos capazes de colher primores e primícias até de finezas invisíveis. alguns fazem dessa conversão um progresso: semeadura que fertiliza e medra ao tocar o solo certo, água da palavra minando contra o fulgor do infértil. comover, convencer: amanhar o espírito para as sementes do evangelho. já outros (muitos) para pregar aos ditos brutos preferem o martelo: golpes sobre o fiel insciente de ser apenas mais um prego, rês sem pastoreio, consciência posta a ferros. mas o semeador que lança grãos sobre a pedra, entre espinhos ou pela estrada, sequer assim os desperdiça por onde passa. a quem conhece a verdade sem parábolas é dado distinguir o dom e a graça, saber do concupiscente para melhor tanger-lhe alma. e se as suas sementes são palavras, não convém que versem sobre coisa tanta ou vária. a fala em excesso diversificada é tiro sem escopo nem bala: raso onde o eloquente e o falastrão por igual naufragam. dos que saem a semear, cumpre cuidar os passos: saber o que logram fora e, de seus grãos, quais e quantos brotam, pois para pregar aos olhos, servem mais as obras. além das tais palavras, sempre certas e bem ordenadas. porém não como ladrilhos, antes como estrelas: cada qual no seu lugar e jeito – em estilo muito alto e muito claro, como se há de pretendê-lo.

 

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