MEMÓRIA DA POESIA NEGRA

por Marcus Fabiano

EM BUSCA DO MALUNGO

 

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Waldemar das Chagas foi um poeta pernambucano radicado no Rio de Janeiro, onde também esteve ativo como fotógrafo, jornalista e artista plástico na década de 1950. Sabe-se pouco a seu respeito. E menos ainda de sua obra.  Cheguei até seu nome pela referência do jornalista Luís Carlos Azedo em uma publicação no seu blog, na qual o mencionava entre os seguintes artistas e militantes do movimento negro: Solano dos Reis, Heitor dos Prazeres, Abdias do Nascimento, Carlos Moura e Geraldo Rodrigues dos Santos.

Procurei imediatamente o pesquisador André Capilé que, como eu, não o conhecia e nem tinha notícias de sua inclusão em estudos acadêmicos de poesia negra. Voltei a conversar com Azedo, que me disse suspeitar da publicação de um livro de Waldemar e de alguns poemas avulsos dele na Imprensa popular, órgão diário do Partido Comunista Brasileiro. Não deu outra: no acervo do jornal, encontrei diversos anúncios da obra Malungo, de Waldemar das Chagas, publicada em meados de 1954 pelo próprio autor, um militante da imprensa com acesso provavelmente facilitado aos serviços das oficinas gráficas.

Na Imprensa popular,  também localizei quatro poemas de Waldemar das Chagas, assim como duas críticas ao seu Malungo. Reproduzirei abaixo dois poemas dele: um sobre o dadaísta e surrealista francês Paul Éluard, morto em 1952, e outro sobre o casal de judeus Julius e Ethel Rosenberg, executados nos EUA em 1953 como espiões responsabilizados pelo repasse aos soviéticos dos segredos militares da bomba nuclear. O Canto para Julius e Ethel, de Waldemar, foi publicado em uma página onde constam “apenas”o poema A África está se libertando, de Francisco Solano, a carta de um dirigente socialista argentino a Graciliano Ramos e um texto de Sílvio Romero sobre Frei Caneca.

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Demonstrando grande comprometimento com o campo internacional dos autores e intelectuais de esquerda, Waldemar das Chagas comparece às homenagens dos brasileiros aos 50 anos dos poetas Nicolás Guillén e Pablo Neruda, figurando ao lado de nomes como Astrojildo Pereira, Cândido Portinari, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Oscar Niemeyer. Contudo, a primeira das críticas ao Malungo (transcrita abaixo) é bastante severa, recriminando Waldemar por citar, em epígrafe, alguns versos do “reacionário Carlos Drummond de Andrade”. Tal crítica era veiculada no ano de 1954, quase dez anos após Luís Carlos Prestes ter convencido o Drummond de A Rosa do Povo a tornar-se editor da Imprensa popular, em uma desastrosa experiência que duraria poucos meses. Essa primeira crítica ao Malungo, não assinada, acaba assim prestando-se a endereçar uma forte reprovação ao Drummond de O fazendeiro do ar, dono então de posições anti-soviéticas e sempre cioso por equilibrar sua reputação com liberais e católicos.

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Na segunda crítica ao Malungo, da lavra de Dalcídio Jurandir, há um tom bem mais positivo e laudatório na análise da obra. Chamo atenção, entretanto, para o possível exagero na apreciação dos versos de Waldemar a respeito da sua própria condição negra. Mesmo sem conhecer a integralidade de sua obra, a pecha de autocomiseração, insinuada pelo crítico, parece-me bastante injusta, sobretudo se avaliada pelos próprios versos transcritos.

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Hoje, na Revista Modo de Usar & Co., Ricardo Domeneck destacou o relevante trabalho do poeta e compositor carioca Nei Lopes. Ao compartilhar essa postagem, ressaltei a urgência em se somar iniciativas de investigação, crítica e divulgação para uma mais completa genealogia dos artistas negros brasileiros, dirigida tanto à recuperação da memória como ao enriquecimento geral de nosso cânone. A postagem logo despertou o interesse do pesquisador Samuel Delgado Pinheiro, que gentilmente ajudou-me com valiosas informações sobre a atuação de Waldemar, junto com Abelardo da Horta e Hélio Feijó, na Sociedade de Arte Moderna de Recife, na década de 1940. Estamos agora reunindo esforços para a tentativa de localização de um exemplar do livro de Waldemar das Chagas,  pois tudo indica que o seu volume não está catalogado no acervo da Biblioteca Nacional. Agradecemos, portanto,  a quem puder mobilizar os seus contatos  com a rede de amigos, parentes e militantes do poeta a fim de prestar esse grande serviço a leitores, pesquisadores e curiosos da cultura brasileira em geral: a recuperação do Malungo.

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