ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: junho, 2017

FUBÁ COM CIMENTO

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Os ratos vão roer – já roeram!- todo o dinheiro!…
Dyonelio Machado, Os Ratos

 

FUBÁ COM CIMENTO

rato na roça
sabe como se mata?
fubá com cimento
(melhor que ratoeira
ou qualquer veneno)

o bicho se farta
e logo em seguida
quando bebe água
o bucho empedra
e lá mesmo ele fica
estirado, durinho
(parece dormindo)

uns alegam maldade
com a espécie sócia
outros a dizem antiga
solução ecológica.

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180 ANOS DA FUGA DE BENTO GONÇALVES

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Forte do Mar ou Forte de São Marcelo. Salvador, Bahia.

 

FORTE DO MAR

um uivo
demencial
rasgando
coágulos
de catarro:
clangor
dos timos
espremidos

é agonia
a lua negra
de terra
sob as unhas
do cativo
genuflexo

os sótãos
da noite
palpitam
no baixel
aquoso:
um plano
de evasão
esvaziando
calabouços.

clangor dos timos espremidos: um uivo demencial rasgando coágulos de catarro é agonia a lua negra de terra sob as unhas do preso genuflexo os sótãos da noite palpitam no baixel aquoso: um plano de evasão esvaziando calabouços .

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O CASO DO BAILARINO

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ANTROPOFAGIAS, TEXTO III

Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
“o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a ver “isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
em termos de espaço dentro do tempo
“vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos de agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i.e. a qualidade “forte” do sítio
e pés
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda “o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
“os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luís Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
“a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir

 

Herberto Helder

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