OLEG KARAVAICHUK

por Marcus Fabiano

239ef2bdca4b412eb2a5b5ca947e364a.jpgOleg Nikoláyevich Karavaichuk foi um pianista, ator, compositor e performer russo-soviético que viveu entre 1927 e 2016. Formado pelo conservatório de Leningrado logo após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu uma singularíssima personalidade cênica, influenciada pelo dandismo da aristocracia dos czares (como o que se vê na Arca Russa, de Alexandr Sokurov) e as atitudes irreverentes das vanguardas pós-futuristas, sobre as quais já escrevi aqui. Virtuose precoce, apresentou-se aos sete anos de idade para Josef Stalin, salvando assim o seu próprio pai, um violinista, do cativeiro de um gulag (última imagem abaixo). Duramente perseguido pela censura do regime por suas maneiras exóticas e extravagantes, Karavaichuk teve suas execuções públicas proibidas, refugiando-se desde então nas composições para o balé e o cinema. Colaborou prolificamente em mais de 150 filmes, trabalhando inclusive com diretores de grande prestígio, como Sergei Paradjanov e Kira Muratova. Era admirado por Serguei Eisenstein e amigo de Andrei Tarkovski. Seus improvisos aterradores e suas magníficas trilhas sonoras logo foram notados mundo afora, o que no entanto não chegou a alçar a projeção de sua atividade autoral em um sistema rigidamente controlado pela KGB.

Frequentador do museu Hermitage, onde era excepcionalmente autorizado a ensaiar em um piano da coleção de Nicolau II, Karavaichuk sentia-se nostálgico de Catarina, a Grande. A sua figura frágil e magérrima, de voz fina e suave, confere-lhe um ar de passarinho, corroborado ainda pelo esterno saliente que enverga encimado por cabelos ruivos e o nariz aquilino plantado na face zigomática de onde fulgem meigos e baços olhos claros sob uma boina de lã. Trajando roupas coloridas e juvenis, tocava em posições nada convencionais (inclinado e de joelhos) ou até com uma fronha de almofada na cabeça, para ignorar o público de curiosos ao seu redor. Era capaz de ir dos gestos mais suaves ao vigor dos duros golpes percussivos sobre o teclado do piano. Ao suspender por alguns momentos as mãos possantes e pequenas, notavam-se suas as articulações engrossadas por décadas de prática musical.

Sem ver o seu trabalho executado ou divulgado, retirou-se do convívio social, jamais aceitando a participação em projetos comerciais. Mas o gênio de Karavaichuk seria mundialmente aclamado após uma transmissão da BBC de Londres nos anos 1980. Ainda pouco divulgado fora da Rússia, onde ficou conhecido como “o compositor louco” do subúrbio de São Petesburgo, sua obra é hoje veiculada em apenas dois discos (Valsas e interlúdios e Concerto Grosso), um DVD (Mão de Gogol) e inúmeros registros esparsos, dentre os quais muitos articulam performances com música, poesia, dança e vídeo. Em 2015, o diretor Andrés Duque dedicou-lhe o documentário Oleg y las raras artes, amplamente elogiado por público e crítica de diversos festivais (assisti-o há algumas semanas e é mesmo ótimo). Karavaichuk morreu no ano passado, em São Petesburgo, aos 88 anos. Além dos discos referenciados acima, apresento a seguir uma pequena seleção da potência de seu trabalho musical e performático. Chamo atenção para o primeiro vídeo (com raras imagens de Leni Riefenstahl entre os nuba)  e o quarto, Mão de Gogol.  E agora, por favor, silêncio. 

oleg

ss-5MqQrUwIWeNMorM6zfA

Oleg-Karavai-chuk-830x500

A2-74151221.jpg

342490

402281_600

 

*

 

*

Anúncios