ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

Mês: novembro, 2017

AFTERIMAGE : POWIDOKI

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à memória de Leopold Wosiack

POWIDOKI: A DESPEDIDA DE ANDRZEJ WAJDA

Tive um tio-avô polonês que sumiu pelo mundo com um cavalete e umas bisnagas de tinta na cacunda. Pintor, poliglota e falsário, ele ganhava a vida com seu pincel, vendendo quadros, retocando cédulas e atravessando idiomas de porto em porto. Muito tempo depois do seu desaparecimento, em uma viagem à Cracóvia, encontrei o ramo polaco da família exterminada nos arquivos do campo de concentração de Auschwitz. Paulatinamente fui então montando o quebra-cabeças dessa cultura extraordinária. Comprimida entre alemães protestantes e russos ortodoxos, a Polônia desapareceu algumas vezes do mapa, acumulando uma história complexa e sinuosa. E a sina da sua arte não haveria de ser diferente.

Uma vez que muitos poloneses tomaram parte direta na Revolução de 1917, diversos comunistas da Polônia foram impiedosamente caçados por stalinistas e nazistas. Entretanto, essa exasperação entre polacos, alemães e russos penetra noite adentro no passado mais longínquo da Idade Média. Um grande intelectual polonês, de quem fui secretário por um semestre, disse-me certa vez, caçoando: “numa guerra com alemães e russos, primeiro os polacos matam os alemães, depois os russos: primeiro o dever, depois o prazer!”. Com efeito, dois acontecimentos mais recentes tornam-se significativos para se compreender o filme e a saga de seu personagem principal ora comentados. O primeiro deles é o revés imposto pelos poloneses ao Exército Vermelho na batalha do Vístula, uma fragorosa derrota da tentativa de anexação soviética que forçaria Lênin a assinar um humilhante tratado de paz reconhecendo a independência da Polônia em 1920, pondo fim à guerra polaco-soviética. O segundo episódio envolve já a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin, que tiveram de aguardar até 1939 para repartir o butim da Polônia por uma dupla invasão acordada no mefistotélico Pacto Ribbentrop-Molotov. Ainda sobre essas memórias históricas e afetivas, ocorrem-me também dois filmes amplamente aclamados: Os falsários (de Stefan Ruzowitzky) e Katyn (também de Andrzej Wajda), este último sobre o massacre perpetrado pelos soviéticos contra o oficialato polonês na Segunda Guerra Mundial, um crime durante longos anos erroneamente atribuído aos alemães. Mas menciono essas duas obras apenas para tratar da derradeira produção de Andrzej Wajda: Powidoki (impressões), traduzido em inglês como Afterimage e em francês como Les fleurs bleus (As flores azuis), uma escolha necessária para se evitar prováveis confusões com a palavra impressionismo, tão específica no mundo da arte pictural. Esse filme, de 2016, trata do último período do artista plástico e esteta polonês Wladyslaw Strzeminski, nascido em Minsk (então Império Russo) no ano de 1893 e falecido em Lodz, na Polônia, em 1952, exatamente um ano antes da morte de Stalin. A potente fotografia aliada ao domínio narrativo de Andrzej Wajda conduzem-nos ao calvário vivido por Strzeminski durante o domínio soviético, mudança que impôs brutalmente o realismo socialista como doutrina oficial de Estado no terreno das artes e da literatura em praticamente todo o bloco socialista e suas sucursais.

Amputado de uma perna e um braço pela explosão de uma granada em 1916, na Primeira Guerra Mundial, Strzeminski também perdeu praticamente toda a visão de um olho (fato este infelizmente suprimido no filme). Mas nada disso afetou a sua prolífera produção, atualmente considerada como a mais importante da pintura polonesa modernista e uma arrojada precursora do construtivismo paneuropeu. E não era para menos: Strzeminski convivera com sua esposa, a escultora Katarzyna Kobro, por cinco anos na Moscou revolucionária ao lado de inúmeros poetas e fundadores de movimentos seminais como Kazimir Malevich, Alexander Rodtchenko e Vladimir Tatlin, vindo a colaborar ainda com Wassily Kandinsky, Marc Chagal e Piet Mondrian, entre muitos outros luminares do arrojo estético do século XX. Ao longo do filme, todo esse sólido e precoce passado revolucionário incita um conflito entre o protagonista e os representantes do regime até sua vida tornar-se material e psicologicamente insuportável. Defensor intransigente da autonomia estética das questões formais para além do mero engajamento propagandístico, Strzeminski opôs-se desde cedo ao que chamava o barroquismo de Cézanne. E a sua última fase criativa, abordada no filme, preocupava-se primordialmente com as reminiscências óticas e mentais da experiência visual, formadas a partir do momento em que as pálpebras cerram os olhos: powidoki, as impressões deixadas na retina, um misto de impregnação luminosa e exercício ativo da lembrança, algo muito próximo ao que Henri Bergson pioneiramente descrevera em 1901.

Juntamente com Kobro (cuja obra “degenerada” foi em grande parte destruída pelos nazistas), Strzeminski desenvolveu os fundamentos da doutrina unista em pintura, escultura, design tridimensional, arquitetura e artes gráficas. Em abril deste ano, o museu Rainha Sofia da Espanha dedicou ao casal  Kobro-Strzeminski uma excelente mostra retrospectiva, sucedendo a uma grande exposição do museu de Lodz, de 2011, dedicada apenas ao artista.  Como teórico radical da imagem e do espaço, Strzeminski é lamentavelmente pouco conhecido no Brasil. Entretanto, até mesmo nos grandes círculos críticos ele é ainda escassamente estudado na sua tentativa de fugir às polaridades entre o figurativismo e o abstracionismo sem aceitar as soluções impressionistas, cubistas ou surrealistas. Do radical geometrismo suprematista de Malevich à pintura de paisagens ao ar livre, ele pensou e exercitou a superfície pictural não apenas nos limites físicos das suas possibilidades expressivas, senão também na sua recepção fisiológico-mental e protopictórica.

Ponderando as articulações entre olho, corpo, espaço e mente, Strzeminski situa-se no terreno de uma fenomenologia materialista da visão, para a qual o contorno do traço, o volume perspectivado, a cor e a tensão composicional da pintura não estavam apenas submetidos ao regime de luz e sombra, mas ainda ao próprio cessamento da recepção visual. É dizer: ele preocupava-se com uma pintura que ao cabo se plasmava a partir dos resíduos fotossensíveis do visto, de certos rastros evanescentes deixados na câmara escura do globo ocular, a serem recolhidos como matéria criativa pela lembrança do pintor interessado em descobrir como o homem enxerga e constrói aquilo que vê ou pensa ter enxergado. Graças a esse conjunto de questões, parte considerável do arco dramático do filme de Wajda envolve o círculo de admiradores e alunos diletos que tentam salvar os quadros de Strzeminski e registrar a sua célebre Teoria da Visão a partir de esparsas notas de aula e fragmentos ditados.

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Teoria da Visão, edição crítica de Lodz, 2016.

Proibido de lecionar na universidade (expulso da Escola de Belas Artes de Lodz, da qual foi fundador), Strzeminski teve o seu registro profissional cancelado no sindicato dos artistas. Impedido de trabalhar e sem dinheiro em uma sociedade paupérrima e destituída de mercado, ele passou a ter sérias dificuldades para obter desde tintas até os disputados cupons de alimentação do governo. Mentalmente massacrado e colhido pela tuberculose, terminou por falecer trabalhando sobre os rascunhos da sua obra teórica, que só viria a público em 1958, com a distensão pós-stalinista.

Infelizmente, Powidoki foi também o adeus do próprio Andrzej Wajda, morto em outubro de 2016. Retomando algo dos seus contundentes O homem de ferro e  O homem de mármore, do começo da década de 1980, Wajda despediu-se acertando as contas com a barbárie stalinista que marca de modo indelével o seu cinema político. Nesse epílogo magistral, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017, ele deixa um excelente retrospecto para quem se disponha a fechar os olhos e procurar lembrar, nesses 100 anos da Revolução de Outubro, como puderam os comunistas ter reunido tantos espíritos prodigiosos do século XX e depois terminado como uma súcia de medíocres sufocada pelo próprio parasitismo burocrático. Talvez seja despiciendo mencionar que o socialismo real começou a ruir na Polônia, bem antes da queda do muro de Berlim ou do colapso da União Soviética. Mas esse já seria um outro filme, para o qual, entretanto, a obra de Wajda certamente terá muito a colaborar.

 

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O SATANISMO EM CRUZ E SOUSA

cruz e sousa

 

O satanismo em João da Cruz e Sousa é tema que desde sempre me fascinou pela elegância extrema de sua potência poética. Para os incautos, convém entretanto considerar que não se trata aí de nenhuma vocação diabólica desse poeta negro de Santa Catarina cuja obra revela imensa obsessão pelas alvuras (contam-se mais de 400 metáforas e imagens do branco em seus versos).  O satanismo em  Cruz e Sousa é antes de tudo a abordagem contrapontística de um tópico tornado uma espécie de desafio intelectual para os mestres simbolistas. Poderia até discorrer sobre esse tema realmente crucial, mas prefiro antes indicar esse ótimo artigo de Marie-Hélène Catherine Torres, pesquisadora que trabalhou anos ao lado de Paul Ricoeur no Instituto Católico de Paris e amiga do meu querido frei Bruno Palma. Tranquilizados assim os leitores cristãos desse blogue, apresento abaixo uma seleção de três poemas satanistas do imenso Cruz e Sousa, que hoje completa 156 anos do seu nascimento. Ao final da tríade, trago ainda o meu poema Os novos broqueis, inédito em livro e escrito em memória do nosso Cisne Negro no ano de 2004.

 

SATÃ

Capro e revel, com os fabulosos cornos
Na fronte real de rei dos reis vetustos,
Com bizarros e lúbricos contornos,
Ei-lo Satã dentre os Satãs augustos.

Por verdes e por báquicos adornos
Vai c′roado de pâmpanos venustos
O deus pagão dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.

Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
A púrpura das glórias flamejantes,
Alarga as asas de relevos bravos…

O Sonho agita-lhe a imortal cabeça…
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!

* * *

SATANISMO

Não me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
Não me deixes a razão vagar confusa
Ao relâmpago ideal de teus olhares.

Não me olhes, oh! não, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a rápida explosão dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problemático, fatal, cálido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!…

Não me olhes, oh! não, que m’entolece
Tanta luz, tanto sol — e até parece
Que tens músicas cruéis dentro do olhar!..

* * *

A FLOR DO DIABO

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisitor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.

Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,

Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno…

Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando…

Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.

E deu-lhe a quint′essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias…

Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.

Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.

[Cruz e Sousa in: Obras Completas]

***

 

 OS NOVOS BROQUEIS

dito um certo oblíquo
de requintes despojado
sem as maneiras finas
do nu e do calvo
libidinoso e dissoluto
feito um fauno
ou antes mesmo um tarado
que se apresenta inconveniente
(de pau duro & pelado)
que atinge de través
como a cilada inevitável
que não é de quina perfeita
como o canto do esquadro
que chega bicudo e hostil
como o cotovelo do gaiato
que alvoroça e aterroriza
a sentinela em sobressalto
que brandindo seu escudo
enfim revida o atentado

mas não um escudo muro
(dos de imenso anteparo)
e sim um bem pequeno
a bem dizer discoide ou ovalado
um escudo então redondo
sem as coberturas do biombo
e que para se exprimir corretamente
remove o pó da palavra broquel
– a mesma dos Broqueis de Cruz e Sousa:
um escudo ágil e de estreita loisa
que traz no centro de sua calota
uma ponta muito aguda
(por isso dita broca)
recurso derradeiro de quem
surpreendido sem seu gládio
conserva na própria defesa
o rechaço do adversário.

[MFG]

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