ARAME FALADO

MARCUS FABIANO GONÇALVES

AFTERIMAGE : POWIDOKI

por Marcus Fabiano

MV5BMmUyNjcyYTUtMjc0YS00YTQ2LWFjYTktNmE4YTQ3NmNkYWRjXkEyXkFqcGdeQXVyMjMwOTA0Ng@@._V1_SY1000_CR0,0,682,1000_AL_

à memória de Leopold Wosiack

POWIDOKI: A DESPEDIDA DE ANDRZEJ WAJDA

Tive um tio-avô polonês que sumiu pelo mundo com um cavalete e umas bisnagas de tinta na cacunda. Pintor, poliglota e falsário, ele ganhava a vida com seu pincel, vendendo quadros, retocando cédulas e atravessando idiomas de porto em porto. Muito tempo depois do seu desaparecimento, em uma viagem à Cracóvia, encontrei o ramo polaco da família exterminada nos arquivos do campo de concentração de Auschwitz. Paulatinamente fui então montando o quebra-cabeças dessa cultura extraordinária. Comprimida entre alemães protestantes e russos ortodoxos, a Polônia desapareceu algumas vezes do mapa, acumulando uma história complexa e sinuosa. E a sina da sua arte não haveria de ser diferente.

Uma vez que muitos poloneses tomaram parte direta na Revolução de 1917, diversos comunistas da Polônia foram impiedosamente caçados por stalinistas e nazistas. Entretanto, essa exasperação entre polacos, alemães e russos penetra noite adentro no passado mais longínquo da Idade Média. Um grande intelectual polonês, de quem fui secretário por um semestre, disse-me certa vez, caçoando: “numa guerra com alemães e russos, primeiro os polacos matam os alemães, depois os russos: primeiro o dever, depois o prazer!”. Com efeito, dois acontecimentos mais recentes tornam-se significativos para se compreender o filme e a saga de seu personagem principal ora comentados. O primeiro deles é o revés imposto pelos poloneses ao Exército Vermelho na batalha do Vístula, uma fragorosa derrota da tentativa de anexação soviética que forçaria Lênin a assinar um humilhante tratado de paz reconhecendo a independência da Polônia em 1920, pondo fim à guerra polaco-soviética. O segundo episódio envolve já a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin, que tiveram de aguardar até 1939 para repartir o butim da Polônia por uma dupla invasão acordada no mefistotélico Pacto Ribbentrop-Molotov. Ainda sobre essas memórias históricas e afetivas, ocorrem-me também dois filmes amplamente aclamados: Os falsários (de Stefan Ruzowitzky) e Katyn (também de Andrzej Wajda), este último sobre o massacre perpetrado pelos soviéticos contra o oficialato polonês na Segunda Guerra Mundial, um crime durante longos anos erroneamente atribuído aos alemães. Mas menciono essas duas obras apenas para tratar da derradeira produção de Andrzej Wajda: Powidoki (impressões), traduzido em inglês como Afterimage e em francês como Les fleurs bleus (As flores azuis), uma escolha necessária para se evitar prováveis confusões com a palavra impressionismo, tão específica no mundo da arte pictural. Esse filme, de 2016, trata do último período do artista plástico e esteta polonês Wladyslaw Strzeminski, nascido em Minsk (então Império Russo) no ano de 1893 e falecido em Lodz, na Polônia, em 1952, exatamente um ano antes da morte de Stalin. A potente fotografia aliada ao domínio narrativo de Andrzej Wajda conduzem-nos ao calvário vivido por Strzeminski durante o domínio soviético, mudança que impôs brutalmente o realismo socialista como doutrina oficial de Estado no terreno das artes e da literatura em praticamente todo o bloco socialista e suas sucursais.

Amputado de uma perna e um braço pela explosão de uma granada em 1916, na Primeira Guerra Mundial, Strzeminski também perdeu praticamente toda a visão de um olho (fato este infelizmente suprimido no filme). Mas nada disso afetou a sua prolífera produção, atualmente considerada como a mais importante da pintura polonesa modernista e uma arrojada precursora do construtivismo paneuropeu. E não era para menos: Strzeminski convivera com sua esposa, a escultora Katarzyna Kobro, por cinco anos na Moscou revolucionária ao lado de inúmeros poetas e fundadores de movimentos seminais como Kazimir Malevich, Alexander Rodtchenko e Vladimir Tatlin, vindo a colaborar ainda com Wassily Kandinsky, Marc Chagal e Piet Mondrian, entre muitos outros luminares do arrojo estético do século XX. Ao longo do filme, todo esse sólido e precoce passado revolucionário incita um conflito entre o protagonista e os representantes do regime até sua vida tornar-se material e psicologicamente insuportável. Defensor intransigente da autonomia estética das questões formais para além do mero engajamento propagandístico, Strzeminski opôs-se desde cedo ao que chamava o barroquismo de Cézanne. E a sua última fase criativa, abordada no filme, preocupava-se primordialmente com as reminiscências óticas e mentais da experiência visual, formadas a partir do momento em que as pálpebras cerram os olhos: powidoki, as impressões deixadas na retina, um misto de impregnação luminosa e exercício ativo da lembrança, algo muito próximo ao que Henri Bergson pioneiramente descrevera em 1901.

Juntamente com Kobro (cuja obra “degenerada” foi em grande parte destruída pelos nazistas), Strzeminski desenvolveu os fundamentos da doutrina unista em pintura, escultura, design tridimensional, arquitetura e artes gráficas. Em abril deste ano, o museu Rainha Sofia da Espanha dedicou ao casal  Kobro-Strzeminski uma excelente mostra retrospectiva, sucedendo a uma grande exposição do museu de Lodz, de 2011, dedicada apenas ao artista.  Como teórico radical da imagem e do espaço, Strzeminski é lamentavelmente pouco conhecido no Brasil. Entretanto, até mesmo nos grandes círculos críticos ele é ainda escassamente estudado na sua tentativa de fugir às polaridades entre o figurativismo e o abstracionismo sem aceitar as soluções impressionistas, cubistas ou surrealistas. Do radical geometrismo suprematista de Malevich à pintura de paisagens ao ar livre, ele pensou e exercitou a superfície pictural não apenas nos limites físicos das suas possibilidades expressivas, senão também na sua recepção fisiológico-mental e protopictórica.

Ponderando as articulações entre olho, corpo, espaço e mente, Strzeminski situa-se no terreno de uma fenomenologia materialista da visão, para a qual o contorno do traço, o volume perspectivado, a cor e a tensão composicional da pintura não estavam apenas submetidos ao regime de luz e sombra, mas ainda ao próprio cessamento da recepção visual. É dizer: ele preocupava-se com uma pintura que ao cabo se plasmava a partir dos resíduos fotossensíveis do visto, de certos rastros evanescentes deixados na câmara escura do globo ocular, a serem recolhidos como matéria criativa pela lembrança do pintor interessado em descobrir como o homem enxerga e constrói aquilo que vê ou pensa ter enxergado. Graças a esse conjunto de questões, parte considerável do arco dramático do filme de Wajda envolve o círculo de admiradores e alunos diletos que tentam salvar os quadros de Strzeminski e registrar a sua célebre Teoria da Visão a partir de esparsas notas de aula e fragmentos ditados.

teoria_widzenia_ws_6

teoria_widzenia

Teoria da Visão, edição crítica de Lodz, 2016.

Proibido de lecionar na universidade (expulso da Escola de Belas Artes de Lodz, da qual foi fundador), Strzeminski teve o seu registro profissional cancelado no sindicato dos artistas. Impedido de trabalhar e sem dinheiro em uma sociedade paupérrima e destituída de mercado, ele passou a ter sérias dificuldades para obter desde tintas até os disputados cupons de alimentação do governo. Mentalmente massacrado e colhido pela tuberculose, terminou por falecer trabalhando sobre os rascunhos da sua obra teórica, que só viria a público em 1958, com a distensão pós-stalinista.

Infelizmente, Powidoki foi também o adeus do próprio Andrzej Wajda, morto em outubro de 2016. Retomando algo dos seus contundentes O homem de ferro e  O homem de mármore, do começo da década de 1980, Wajda despediu-se acertando as contas com a barbárie stalinista que marca de modo indelével o seu cinema político. Nesse epílogo magistral, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017, ele deixa um excelente retrospecto para quem se disponha a fechar os olhos e procurar lembrar, nesses 100 anos da Revolução de Outubro, como puderam os comunistas ter reunido tantos espíritos prodigiosos do século XX e depois terminado como uma súcia de medíocres sufocada pelo próprio parasitismo burocrático. Talvez seja despiciendo mencionar que o socialismo real começou a ruir na Polônia, bem antes da queda do muro de Berlim ou do colapso da União Soviética. Mas esse já seria um outro filme, para o qual, entretanto, a obra de Wajda certamente terá muito a colaborar.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: