A CEBOLA DE NERUDA

por Marcus Fabiano

prosource-onions-closeup

A despeito de ser um imenso poeta lírico e político, Pablo Neruda nunca deixou de também exercer-se como um autor de fatura nitidamente fenomenológica. E na acurácia dirigida às coisas mais concretas do mundo ao seu redor, soube (en)cantá-lo por inflexões metafóricas capazes de transcender, com poderoso logro, a mera captura descritiva do real. Extraindo o vigor poético do redor mais prosaico, Neruda agiganta a modéstia de uma cebola nos versos que abaixo traduzi de suas Odes Elementais (1954), construindo assim uma peça de exatidão sensória e maravilhamento telúrico com a forma e o sabor dessa “redonda rosa d’água, baile imóvel de anêmona nevada”. 

 


ODE À CEBOLA

Cebola
luminosa redoma,
pétala por pétala
cresceu tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
arredondou-se teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
teu lento caule verde
e nasceram tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou seu poderio
mostrando tua desnuda transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
e destinada a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa d’água,
sobre a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescor
no consumo
fervente da panela
e o fragmento de cristal
no calor aceso do óleo
transforma-se em anelada pluma de ouro.

Também lembrarei como fecunda
a tua influência o amor da salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do trabalhador no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida
em delicado
papel, sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astro,
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima
sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.
Tudo quanto existe, celebrei, cebola
mas para mim és
mais bela que uma ave
de plumagem ofuscante
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de anémona nevada.

e vive a fragrância da terra
em tua natureza cristalina.

*  *  *

ODA A LA CEBOLLA

Cebolla
luminosa redoma,
pétalo a pétalo
se formó tu hermosura,
escamas de cristal te acrecentaron
y en el secreto de la tierra oscura
se redondeó tu vientre de rocío.
Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre
la mesa
de las pobres gentes.

Generosa
deshaces
tu globo de frescura
en la consumación
ferviente de la olla,
y el jirón de cristal
al calor encendido del aceite
se transforma en rizada pluma de oro.

También recordaré cómo fecunda
tu influencia el amor de la ensalada
y parece que el cielo contribuye
dándote fina forma de granizo
a celebrar tu claridad picada
sobre los hemisferios de un tomate.
Pero al alcance
de las manos del pueblo,
regada con aceite,
espolvoreada
con un poco de sal,
matas el hambre
del jornalero en el duro camino.
Estrella de los pobres,
hada madrina
envuelta
en delicado
papel, sales del suelo,
eterna, intacta, pura
como semilla de astro,
y al cortarte
el cuchillo en la cocina
sube la única lágrima
sin pena.
Nos hiciste llorar sin afligirnos.

Yo cuanto existe celebré, cebolla,
pero para mí eres
más hermosa que un ave
de plumas cegadoras,
eres para mis ojos
globo celeste, copa de platino,
baile inmóvil
de anémona nevada

y vive la fragancia de la tierra
en tu naturaleza cristalina.

 

[Pablo Neruda, Odas Elementales, 1954]

 

 

* * 

.  . . 

Anúncios